A Esquerda é a Voz da Exigência de Paz

porAlda Macedo

26 de março 2025 - 16:57
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Sobreviver ao século XXI significa conjugar sustentabilidade com paz, o que é o oposto do caminho que os governos europeus têm vindo a percorrer.

No início da guerra da Ucrânia, Armin Papperger, que é o CEO da maior empresa de armamento no espaço da UE, a alemã Rheinmetall, declarava numa entrevista à revista Stern, a sua previsão de crescimento da empresa para os anos seguintes. E tinha razão, as empresas de armamento na Europa têm conhecido ao longo dos últimos anos um crescimento desmedido, acompanhado de uma significativa valorização em bolsa.

O grupo Rheinmetall fechou o ano fiscal de 2024 registando um lucro operacional record: um aumento de 61%, cerca de 1,4 mil milhões de euros, 80% dos quais resultando da sua atividade armamentista. Este é o contributo combinado da guerra da Ucrânia e da guerra de Gaza.

Este lucro custava, em janeiro deste ano, a vida de mais de 46 mil palestinianos e de mais de 12 mil civis ucranianos, sem contabilizar os soldados combatentes.

Por seu lado, a gigante americana, a Lockheed Martin, que é o maior produtor mundial de armamento, com uma quota de exportações de 89%, conheceu uma subida em bolsa de 25,6%.

Quando os governos europeus, sob a batuta de Von Der Leyen, se propõem responder ao delírio expansionista da extrema direita nos Estados Unidos, com um plano de 800 mil milhões de euros para armar a Europa, demonstram a face mais perigosa do capitalismo: a sua atração por abismos geradores de lucro para as empresas mais poderosas, mesmo que isso inicie ou agrave uma espiral de conflito, em total desprezo pela vida das pessoas que dela são vítimas.

A Europa tem que ter outras prioridades, particularmente neste tempo em que se exige um crescimento que responda às necessidades de sustentabilidade dos modos de vida. As alterações do clima apresentam um custo, também elas, em vidas e em infraestruturas.

As declarações delirantes da administração Trump sobre a sua ambição face ao Canadá e à Gronelândia, bem como a sua forma agressiva de exigir à Ucrânia o pagamento das ajudas militares que recebeu dos Estados Unidos, resultam essencialmente da bulimia imperialista pelos recursos naturais. Novas tecnologias requerem progressivamente mais metais raros.

Só para dar um exemplo: ítrio, euróbio e térbio, são três dos elementos que constituem a lista de 17 elementos químicos geralmente designados por “terras raras”, e são usados para fabricar ecrãs de computador, telemóvel ou de televisão. Estes são bens de consumo comuns que a indústria quer vender mais e mais, e faturar até ao infinito. Mesmo que a mineração dos elementos referidos tenha um custo ambiental negativo que resulta da libertação de escórias radioativas e da contaminação do solo e da água.

Não surpreenderia se, no seu delírio, a administração Trump não desejasse ansiosamente o degelo definitivo para poder ficar com mais solo para minerar à força toda. Ao mesmo tempo estima-se que, em Miami, o nível do mar subiu já 15cm ao longo dos últimos anos e a previsão é de que venha a subir até 2 metros até ao final deste século. A cidade gasta anualmente uma pequena fortuna para se defender face às cheias.

Tanto os governos europeus como a administração americana vão alegremente comprometendo a sustentabilidade do planeta e as vidas das pessoas em nome de um irracional crescimento das economias.

Não é o investimento em aparelhos militares que faz falta. O investimento que nos falta é na ciência e na tecnologia que nos permitam encontrar soluções sustentáveis para resolver as contradições geradas por este modo de desenvolvimento, e que nos permitam ser independentes do ponto de vista dos combustíveis fósseis. Essa é que é a autonomia e independência que contam.

Mais de 30% dos agregados familiares na União Europeia usa gás natural – fóssil, para aquecimento e aproximadamente um terço do gás importado destina-se à produção de energia. Antes da guerra da Ucrânia, 40% do gás fóssil, importado pela EU, era proveniente da Rússia. Em resultado das medidas de embargo, esta percentagem tinha descido para 8% em 2023, mas no ano passado voltou a subir e fixou-se em 18%. Claramente é a EU a financiar a Rússia e perpetuar a sua própria dependência energética.

A solução da crise energética deve ser colocada no centro das preocupações com a sustentabilidade e a autonomia que gera um lugar de fala em nome da paz.

A agenda da ação política, hoje, tem que saber chamar a exigência de proteção das populações face às agressões, com respostas que sejam eficazes do ponto de vista da manutenção de paz, com modelos de desenvolvimento que promovam uma cultura de sustentabilidade e de respeito pelos direitos humanos. Cada voz que se cala diante do genocídio do povo palestiniano, que é complacente com um ataque inominável contra um estado como a Ucrânia, é uma voz de cumplicidade.   

Alda Macedo
Sobre o/a autor(a)

Alda Macedo

Professora
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