Foi preciso que as pessoas se mobilizassem, foi preciso manifestações que juntaram dezenas de milhar de pessoas, foi preciso que os participantes na Flotilha pusessem a sua vida em risco para que eles, os governos do mundo, viessem, a contragosto, reconhecer o Estado Palestiniano. Foram, até agora, apenas 180, numa resposta tardia, que se arrisca a ser pouco mais do que uma declaração de intenções e que não parece estar a deter Netanyahu de continuar a assassinar Palestinianos em massa.
Ser cúmplice de um crime não se reduz a pegar na arma, é igualmente ficar a ver, nada fazer para impedir e, em muitos casos, facilitar o acesso à arma.
Esta quarta-feira, novos bombardeamentos na cidade de Gaza e duas cidades da Cisjordânia causaram ainda mais dezenas de mortos e feridos.
Os Estados Europeus são subscritores do tratado sobre o comércio de armas, que proíbe a venda de armas que possam ser utilizadas contra alvos civis. No entanto, a Alemanha é, depois dos Estados Unidos, o maior fornecedor de armas a Israel, 30% do armamento israelita é daí proveniente. A Itália e a França, também, em menor escala.
Emmanuel Macron, na sua recentemente descoberta consciência humanitária, declarou o seu apoio à limitação de venda de armas a Israel. O que ele não declara é que é a França que fornece a Israel o equipamento para a produção de drones usados nos ataques contra os Palestinianos e contra a Flotilha.
A estratégia de extermínio do governo da extrema-direita israelita assenta em duas vertentes: matar pelo fogo e matar pela fome.
Em Gaza, onde a ofensiva israelita tem vindo a escalar, foram, segundo a UNICEF, mais uma vez roubados os camiões que transportavam alimento infantil enriquecido, destinado as salvar a vida de 3000 crianças em estado de desnutrição.
Israel fechou a fronteira de Allenby, que é a passagem entre a Cisjordânia e a Jordânia, impedindo a circulação de ajuda humanitária por este ponto de passagem e impedindo a circulação de Palestinianos.
Diante deste quadro, o que fazem os estados europeus? Nada.
Congelaram os bem israelitas em território europeu? Não
Proibiram as trocas comerciais com Israel? Não
Baniram a participação de equipas israelitas em competições internacionais? Também não.
É uma vergonha o que os governos europeus fazem, supostamente em nome das pessoas que os elegeram. As mesmas pessoas que têm vindo a manifestar na rua o seu apoio ao povo palestiniano e a sua rejeição dos crimes que estão a ser cometidos. Em Haia, em Londres, em Bruxelas dezenas de milhares de pessoas saem à rua. Em Itália, onde Giorgia Meloni continua a não reconhecer o Estado Palestiniano, houve manifestações em diversas cidades contra o genocídio do povo palestiniano.
Onde os governos falham, as pessoas erguem-se mais alto.
A bordo da Flotilha viajam à volta de seiscentas pessoas, que transportam cerca de quinhentas toneladas de ajuda humanitária, e transportam, também a esperança de que a humanidade não perdeu o seu sentido de justiça e de respeito pela vida humana.
É com muito orgulho que nos podemos rever na coragem de quem, a bordo da Flotilha enfrenta a ameaça do estado criminoso de Israel – até à data já foram alvo de três ataques com drones israelitas – e enfrenta a ambiguidade cúmplice dos governos do mundo. É o orgulho de acompanhar a Mariana Mortágua numa das iniciativas mais importantes do momento atual. Em nome da esperança, em nome da humanidade.