Esta é a minha primeira reflexão neste novo ano, pensei muito antes de escolher o tema: a educação! Eu sei, já andamos todos um pouco cansados de o abordar, é recorrente, sobretudo quando os docentes ocupam as primeiras páginas com as suas reivindicações! Compreendo a insatisfação geral de quem quer ir trabalhar e encontra, mais uma vez a escola fechada, ficando assim entregue à solução de improviso e com a angústia de que será mais um dia em que o seu pequeno ou pequena não trabalhará as competências essenciais para o seu futuro… E esta preocupação não é de somenos, porque sabe-se que quem pode pagar as propinas exorbitantes de um bom colégio, tem tudo isso, à partida, garantido!
Foi nesta certeza que resolvi refletir convosco toda a estratégia, comum a sucessivos governos do país, mesmo àqueles que enchem a boca como se arrogando os arautos da democracia, e que passa por se manterem em silêncio e inflexíveis, ano após ano, a encontrar aproximações ou mesmo a satisfação, relativamente ao que os docentes reivindicam. Esta postura tem garantido, como diz o povo, matarem dois objetivos de uma cajadada só:
- A primeira, é sem qualquer dúvida, desacreditar a luta sindical e a representação coletiva dos sindicatos, esvaziando a sua capacidade mobilizadora perante a não obtenção de resultados e levando-os muitas vezes a afirmarem que resistir também é lutar!
- A segunda é aprofundarem a imagem de falta de estabilidade na vida diária das escolas e assim, indiretamente, promoverem a “bondade” do ensino privado!
Penso que as notícias recentes sobre os vários resultados de estudos divulgados publicamente, mostram à saciedade, esta estratégia! Senão vejamos: o primeiro estudo divulgado afirmava perentoriamente com percentagens claras, o crescimento do Ensino Privado, representando hoje em algumas regiões do país, já 50% face ao Público!
O que é que vocês sentiram com estes resultados?
Eu senti percorrer-me uma sensação de tristeza, de derrota, pois sendo Portugal um país de tradição de ensino público porque acolhe todas as crianças, independentemente do seu credo religioso, etnia, meio social, para mim representa a resposta que a democracia exige para a sua afirmação e garantia de universalidade! Eu encaro o ensino privado como uma resposta supletiva, que nunca deve concorrer pela sua dimensão, com o ensino público!
Outro estudo, põe em causa a consolidação das aprendizagens obtidas no 1º e 2º CEB, afirmando lacunas graves que poderão colocar em perigo todo o percurso de saberes mínimos para a conclusão do Ensino Básico! Mais um estudo que traduz para a opinião pública ineficácia e incompetência naquele que é o trabalho dos profissionais destes níveis de ensino, isto no imediato!
É assim? Não, não é assim!
À primeira análise pode erradamente concluir-se dessa forma, mas é muito pouco sério chegar-se a essa conclusão, como o é afirmar-se que não há problemas e esconder tudo o que nos deve merecer reflexão de forma a se encontrar caminhos que tragam mudanças substantivas a esta área! Há que acima de tudo pensar a escola como parte integrante da sociedade em que vivemos e olhar para os saberes que são necessários para que os nossos cidadãos sejam competentes na sua relação com os outros e com o mundo. Se defendemos uma sociedade com valor humanistas, de respeito pela diferença, de combate às desigualdades, a escola e todo o seu projeto deve organizar-se por esses princípios! Esta organização tem de refletir, também, o papel de toda a sua comunidade:
- As assistentes operacionais, são as profissionais que abraçam os meninos e as meninas, todos os dias, na sua entrada e saída do estabelecimento, bem como os/as que acompanham as suas brincadeiras em tempo livre da ação do docente, são ainda o primeiro elo de ligação com as famílias. Devem, por tudo isto, ter um papel integrante no desenho do trabalho e funcionamento da escola evitando-lhes sobrecargas de trabalho, fazendo um acompanhamento regular da sua atividade.
- Ter em atenção a faixa etária do seu corpo docente: se muito jovens, estabelecerem-se redes colaborativas de trabalho para que não se sintam perdidos numa profissão tão exigente, mas também para que seja possível a inovação em processos de ensino/ aprendizagem, cuidando que os seus horários de trabalho permitam a conciliação familiar. Se a faixa etária é muito elevada, perceber que apoios serão necessários para evitar o desgaste e sofrimento desses profissionais, valorizando a sua experiência e saberes, capitalizando assim, a riqueza, que é a sua troca intergeracional, mas também assim, combatendo o idadismo de que, tantas vezes, são vítimas!
- Os alunos, terão que, a meu ver, dentro das respetivas faixas etárias ser parte na vida da escola, construindo com eles as regras de vivência em comum, mas também informando como funcionam as diversas estruturas de funcionamento do agrupamento e do estabelecimento, ouvi-los e respeitar as suas decisões quando consultados, permitir a troca de saberes com a comunidade envolvente da escola. Surpreender-nos-ão com as posições que assumem perante a vida e a realidade!
- De propósito, deixei para o fim, a que para mim, politicamente, é fundamental: o modelo de gestão! Há muita coisa escrita e debatida sobre este tema, não vos vou maçar com isso, só vos deixo aquela que considero a contradição mais evidente: como se pode falar de democracia numa escola com um registo autocrático de funcionamento? Como podemos construir modelos democráticos com os alunos, quando a realidade é esta?
Muito há a refletir sobre todas estas questões, deixei-vos algumas, certamente provocarão debate, mas faço-o sobretudo porque para mim a perversão da democracia começa no momento em que, em cada decisão nossa, não pensamos no bem estar coletivo, no respeito que temos pela diferença, solidariamente no outro… Este é o combate de hoje, de toda a esquerda, temos de fazer a diferença, desde logo porque assumimos o que não está bem, com humildade, debatemos, sem dogmas, nem titubearmos, soluções que restaurem a credibilidade no que ainda penso ser, apesar de todas as contradições, o melhor sistema político, a Democracia… E a escola Pública de qualidade tem um papel essencial na edificação e preservação do mesmo!