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Escola! Espaço Pedagógico ou Espaço Clínico?

Quando pensamos na Escola, como espaço pedagógico e a Escola como espaço clínico, creio que temos de começar por analisar a sociedade em que vivemos ou sobrevivemos.

Vivemos numa sociedade em que a medicalização cresce, principalmente nas sociedades ocidentais, com hiperconsumo de medicação, a sociedade da energia rápida, patoligizante e que representa a pura biologização de conflitos sociais. A escola segue esta vaga, não estando imune a este consumo desenfreado. Por detrás, temos o lóbi farmacêutico, a sociedade de consumo, as políticas médicas, as políticas dos governos neoliberais, as políticas educativas e as famílias. A sociedade e as famílias procuram fármacos publicitados para tudo, uma vez que, e segundo Joseph Freud ”trocamos o problema por transtorno, e o transtorno tem de ser eliminado”, ou seja, corremos para o pedopsiquiatra ou psiquiatra para que nos resolva o dilema emocional, a questão social, o estarmos contra a corrente e, como bons pacientes, tomamos listas de medicação de efeito mais ou menos rápido, porque as fragilidades não são admitidas, esquecendo-nos dos seus efeitos secundários.

A escola, transformada em fábrica, não acolhe alunos/as que considera como transtorno, pois quem não se enquadra em rígidos padrões e normas induzidas pela “arquitetura quantitativista e condutivista de instrumentos cuja construção e linguagem pseudo-científica mascara uma ideologia de homogeneização e de controlo, tem a esperá-lo a condição de doente e a consequente prescrição terapêutica com medicamentos milagrosos que farão a harmonia do mundo” (Rosa Soares Nunes)

Segundo alguns investigadores/as, nos finais do século XIX já existiam registo de crianças com dificuldades de controlar os impulsos, no entanto em 1970 os/as investigadores/as interessam-se pelo transtorno do défice de atenção e hiperatividade, mas é em 1990 que o encaminhamento para tratamento médico e psicológico é determinado. Neste sentido e segundo Marisa Eugênia Melillo Meira “tanto a discrição do transtorno como o tipo de sintomas que sustentam o seu diagnóstico revelam falta de uma análise critica sobre as relações entre os fenómenos que ocorrem na educação e o contexto histórico-social que o determina. Sem essa reflexão, o resultado é inevitável: muitas crianças absolutamente normais podem iniciar uma “carreira” de portadores de dificuldades de aprendizagem”.

Continuando, nesta abordagem que não passa de uma forma encapotada e justificada da escola em excluir os/as alunos/as da aprendizagem, Rosa Nunes refere que “[r]ótulos e etiquetas, mascarados de diagnósticos, vêm justificando o abuso de soluções medicamentosas”. E salienta que “é alarmante o número de crianças e adolescentes medicados por “distúrbios do deficit de atenção com hiperatividade”, por “distúrbios por oposição desafiadora”, o famoso TOD, e tantos outros.

Destacamos o fracasso escolar e a aprendizagem como objeto essencial deste processo. A instituição escolar e as políticas educativas não são questionadas de forma séria e sistemática, e o processo ensino aprendizagem até seria bem sucedido, não fossem os transtornos existentes, principalmente os que não aprendem. A aprendizagem não pode ser encarada como uma atividade cognitiva isolada. E neste sentido, não é possível educar sem ter em conta os contextos sociais diversos, sem expressão de sentimentos e plasticidade cerebral, como refere David Rodrigues. O espaço pedagógico da instituição escolar tem-se esvaziado e isto porque “o trabalho pedagógico vem sendo desqualificado, está voltado para a aprendizagem, para a normalidade, para o saudável, transforma-se em espaço clínico, voltado para os erros de distúrbios”, como refere Cecília Azevedo Lima. Uma outra forma de exclusão, com a conivência dos pais e mães que também querem que os/as filhos/as não sejam um transtorno tanto em casa como na escola e neste sentido os/as seus filhos/as estão na escola e em casa em presença física, e não a aprender e a participar. Segundo Rodrigues “ [n]ão é apenas a presença física, é a pertença à escola e ao grupo, de tal maneira que a criança/o jovem sente que pertence à escola e a escola sente responsabilidade pelo seu aluno”.

Estas questões devem ser refletidas amplamente pela sociedade, pelas famílias e escola, no sentido de uma efetiva inclusão e democratização.


Bibliografia

Cecília Azevedo Lima Collares e Maria Aparecida Affonso Moysés, A Transformação do Espaço Pedagógico em Espaço Clínico (A Patologização da Educação)

Marisa Eugênia Melillo Meira, Para uma crítica da medicalização na educação. Revista Semestral da Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional, SP. Volume 16, Número 1, Janeiro/Junho de 2012:135-142.

Rosa Soares Nunes, (2013) “A Patologização da Educação – da construção social à violência da sua naturalização”, Conferência ao III Simpósio Internacional de Educação Medicalizada, São Paulo, Brasil.

Sobre o/a autor(a)

Professora do Ensino básico e secundário
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