Está aqui

A escola é para ensinar

É este o drama de todo o ensino ditado pelo exame final: confunde uniformização com aprendizagem, não valoriza o conhecimento, não integra, apenas pretende selecionar, criando frustrações em quem é vulnerável e inseguro.

O crescente número de testes e exames que tem sido introduzido no sistema escolar deve-se, assim diz quem defende tais políticas, à necessidade de melhorar o ensino através da responsabilização de professores, pais e alunos. Espera-se assim que os testes funcionem como estímulos para a aprendizagem, ao mesmo que se degrada o ensino público (aumento do número de alunos por turma, redução de apoios a alunos com necessidades educativas, redução no número de funcionários por escola, incapacidade de resolver o caos que é o recomeço do ano letivo, etc).

Quem vier de um meio familiar com recursos terá possivelmente meios para ultrapassar as dificuldades encontradas (ajuda dos pais, explicações, etc). Mas, para quem vier de meios desfavorecidos, o futuro é a exclusão... uma exclusão que começa a ser ditada aos 8 anos

Com um filho de 8 anos, que fez o seu primeiro exame nacional – corrijo, o “teste intermédio” do 2º ano – pude constatar de perto o embuste deste discurso. A partir da Páscoa, altura em que se soube que o agrupamento optara pela prova, a professora viu-se obrigada a treinar as crianças para o teste final. Estas foram alertadas para a necessidade de controlar o tempo (“se não souberes uma pergunta, passa à frente”) e para outras estratégias com vista ao êxito (“responde exatamente ao que te é pedido”; “expõe todos os passos, mesmo se o cálculo mental for óbvio para ti”).

O programa foi cumprido na totalidade nas várias disciplinas, mas percebeu-se que, no terceiro período, se teve de reduzir o tempo dedicado a certas atividades com experiências científicas e raciocínio crítico. A professora fez a opção certa: era preciso treinar as crianças para o que iria ser perguntado no exame, não valia a pena “perder tempo” com aspetos que, por muito valiosos que fossem para o seu desenvolvimento intelectual, pouco reflexo iriam ter nas tabelas pelas quais iriam ser avaliadas.

Por isso, enquanto até à Páscoa era frequente haver trabalhos de casa de investigação (por exemplo, pesquisas sobre questões do mundo animal com apresentações orais para a turma), depois da Páscoa os trabalhos de casa passaram a ser sobretudo fichas segundo o modelo dos testes intermédios. Chegado o “grande dia”, as crianças acharam que os testes tinham sido fáceis.

De facto, os resultados confirmaram as notas anteriores. É sinal de que a professora fez um bom trabalho, que preparou bem as crianças para o que lhes era exigido. E, no entanto, vejo aqui desperdício de tempo: em vez da repetição de fichas e mais fichas sempre muito idênticas, os “maus alunos”, sobretudo aqueles sem apoio familiar, teriam beneficiado de um ensino mais direcionado para as suas fraquezas; por sua vez, os “bons alunos” teriam progredido com mais atividades de enriquecimento.

E é este o drama de todo o ensino ditado pelo exame final: confunde uniformização com aprendizagem, não valoriza o conhecimento, não integra, apenas pretende selecionar, criando frustrações em quem é vulnerável e inseguro (e valerá a pena olhar para os estudos que alertam para o aumento da ansiedade e de estados depressivos em crianças e jovens em idade de exame). Quem vier de um meio familiar com recursos terá possivelmente meios para ultrapassar as dificuldades encontradas (ajuda dos pais, explicações, etc). Mas, para quem vier de meios desfavorecidos, o futuro é a exclusão... uma exclusão que começa a ser ditada aos 8 anos.

Sobre o/a autor(a)

Investigadora do Centro de Estudos Sociais, onde integra o Núcleo de Humanidades, Migrações e Estudos para a Paz.
(...)