Neste início de ano letivo, somos, mais uma vez confrontados com a carência de professores nas escolas. A FENPROF estima que mais de 120,000 alunos vão começar o ano sem ter professor, pelo menos, a uma disciplina.
Compreender como foi possível chegar a esta situação obriga a recuar até ao tempo da antiga Ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, altura em que a humilhação pública dos professores dominava a retórica do governo e servia para camuflar a desvalorização da escola pública e as restrições orçamentais que se seguiriam.
Aquela retórica de culpabilização dos professores serviu, durante anos e nos governos subsequentes, para acomodar toda a espécie de limitações: os obstáculos artificiais para impedir a progressão na carreira; o congelamento ou apagamento de anos de serviço dos professores; o sucesso de modelos de gestão autoritários e anti democráticos; anos de prestação de serviço docente não-remunerado por professores em formação; a imposição de colocação de professores em escolas a muitas centenas de quilómetros, sem qualquer apoio e perante a perspetiva de só poderem voltar a concorrer anos depois. O resultado foi este: a total falta de atratividade da carreira. Ela surge aos olhos dos jovens estudantes como uma carreira penalizadora, mal remunerada e insegura.
Na atualidade aquilo que mais falta, é inverter esta perceção. A Escola precisa de pessoas qualificadas, empenhadas, motivadas para colocar a sua inteligência e a sua criatividade ao serviço da educação de crianças, jovens e adultos.
O crescimento da extrema-direita, o estado de guerra permanente no globo, a ameaça crescente das alterações do clima, um capitalismo cada vez mais brutal, violentas desigualdades de desenvolvimento em diferentes partes do globo e regiões do país, as situações de pobreza extrema significam que se verifica uma exigência cada vez maior de que a escola seja chamada a participar na mudança. Ela não se pode limitar a ensinar competências para o mundo do trabalho. Cada vez mais a escola tem de cumprir uma missão que faça a quadratura entre o desenvolvimento do conhecimento, o acesso aos bens de cultura, a partilha dos afetos e da criatividade, e a aprendizagem para a vida em democracia.
Não existe a menor capacidade de resposta aos desafios da atualidade, se não houver mulheres e homens altamente qualificados e motivados.
Sem ter a pretensão de fazer uma lista exaustiva dos fatores motivacionais dos professores, atrevo-me a dizer que o salário tem um impacto direto na motivação dos professores, como de quaisquer outros profissionais. O relatório da OCDE: “Education at a Glance, 2024”, relativamente a Portugal observa que os salários reais dos professores em Portugal tiveram uma quebra de 4% entre 2015 e 2023, por contraste com o aumento médio de 4% no conjunto dos outros países da OCDE. Valorizar os rendimentos dos professores, tem que ser um objetivo muito sério e não pode descurar o papel pedagógico dos e das restantes profissionais dentro das escolas.
Não é, contudo, o único aspeto importante a integrar num programa transformador. O reconhecimento da capacidade das escolas em implementar respostas pedagógicas flexíveis, adequadas às dificuldades com que elas se deparam diariamente, exige um modelo de gestão e administração participativo, que não se compadeça com desvios autoritários e autocratas. É da partilha do pensamento que nascem as melhores estratégias e é da perceção de fazer parte de um coletivo que nasce a vontade de fazer melhor, e que se ensaiam as melhores práticas de participação. Esta é uma aprendizagem que vale para todos e todas, alunos, professores, pais e funcionários.
Os recursos pedagógicos que hoje fazem mais falta, são fundamentalmente efémeros. Não falo apenas dos consumíveis dos laboratórios, das oficinas de artes ou dos equipamentos desportivos. Falo de computadores, lâmpadas de projetores, teclados, ecrãs, quadros multimédia, colunas de som, enfim, tudo o que pode trazer o universo para dentro da escola e colocá-lo à distância de um toque. Se querem professores motivados e empenhados, não podem esperar que eles vão comprar materiais do seu próprio bolso, ou que levem o seu próprio projetor de casa, não podem esperar uma ginástica constante de descobrir onde há uma sala com computadores a funcionar em número suficiente para acomodar vinte e oito alunos.
A emancipação dos povos não depende da Escola, mas precisa dela como lugar de apropriação dos bens do conhecimento, de tempo de desenvolvimento das ferramentas do pensamento crítico, precisa da dinâmica de compreensão dos conflitos e de projeção da mudança. Precisa, portanto, de profissionais qualificados, inconformados com a rotina, de peito aberto aos afetos, de vontade de serem agentes de mudança.