Os últimos meses deixaram o Governo fragilizado e isolado. A inabilidade na gestão da resposta às tempestades, o autoritarismo na negociação do pacote laboral e a incapacidade na resposta à crise de custo de vida deixaram Luís Montenegro mais vulnerável, e há duas reações que o comprovam.
A primeira é o súbito aparecimento de Passos Coelho. Cheirou-lhe a sangue e veio a passo rápido criticar o Executivo, afirmando-se como protagonista pronto para liderar a direita, sinalizando a possibilidade de convergências com a Iniciativa Liberal e o Chega. Montenegro percebeu (era impossível não o perceber) e desafiou Passos a assumir a concorrência, mas isso não aconteceu.
A segunda é o ensaio de Cavaco Silva, que percebendo a fragilidade de Montenegro, se posicionou na disputa, defendendo o atual primeiro-ministro e o seu proclamado “ímpeto reformista”. Procurou mostrar que Luís Montenegro ainda tem apoio dos senadores social-democratas e fingiu que o partido não está dividido.
Pouco a pouco, juntam-se as peças para uma disputa entre as elites económicas. De um lado, as que apoiam e se comprometeram com o Governo de Luís Montenegro e com a sua teoria dos três blocos. Diz Montenegro, e repete-o insistentemente, que existe um bloco de extrema-direita, um bloco de extrema-esquerda (que inclui o Partido Socialista, apesar de estar permanentemente de mão dada ao Governo), e um bloco do centro “reformista”. É a retórica que dá a coesão aos fiéis de Montenegro, cujo objetivo é encostar-se cada vez mais a direita para tentar secar o Chega.
Do outro lado, as elites impacientes, que na cobiça da dominação social potenciam uma maioria governativa que inclui a extrema-direita e a direita ultraliberal, e que tem como protagonista Passos Coelho. Assumem que a estabilidade está na maioria de direita e tentam enfraquecer Montenegro para ver se cai.
Enquanto nos bastidores se organizam estes jogos de poder, a crise de custo de vida esmifra a maioria da população. Sobem as prestações da casa, os bens essenciais, os combustíveis e os medicamentos. A estabilidade política não existe fora dessa realidade.
O horizonte da ação da esquerda anticapitalista é assumir a agenda contra a crise de custo de vida sem permitir que a extrema-direita o faça. Regular os preços e colocar quem lucra com a guerra a pagar a crise, procurando uma maioria social para resolver a crise da habitação e a crise de custo de vida atacando a sua raiz.