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Elogio do dissenso

O que espero fique na memória de todos? O direito à indignação, o prazer de lutar pelo que nos parece justo, quando nos parece justo. A frase que gostava tanto de repetir: “Só é vencido quem desiste de lutar.”

Conheci Mário Soares em 1965, no Tribunal Plenário de Lisboa, durante o julgamento das dezenas de estudantes presos no início desse ano pela PIDE. Foi ele que me inquiriu como testemunha abonatória de um dos réus. Nessa altura, os poucos advogados que defendiam pessoas acusadas de “atentar contra a segurança interna do Estado Português” mereciam o meu imediato respeito. Sobretudo sabendo que muitos deles – e era o caso de Soares – tinham também eles passado pelas prisões políticas e eram personae non gratae para o regime. 

Respeito, mas sem excessos. Os meus heróis eram outros, e teria gostado de palavras mais firmes contra o colonialismo e a guerra colonial do que as que eram proferidas pela Oposição portuguesa. Sabia, no entanto, que, em caso de prisão, era um daqueles a quem podia recorrer para minha defesa. Não aconteceu – e a questão nem sequer se pôs porque, quando fui julgada, estava Soares no exílio, em França.

Viria a encontrá-lo várias vezes em trabalho, normalmente em torno das suas missões pela Internacional Socialista. Em acordo ou desacordo com as opiniões que lhe ouvia, Mário Soares marcava, nessa segunda metade da década de 70, início da de 80, a euforia de ser parte activa da política internacional. América Latina, Médio Oriente, África, eram próximos e importantes nos nossos noticiários. Saber Mário Soares a visitar Arafat cercado em Beirute, ler, num país da América Central, notícias de “Las Alboferas” sobre o assassinato de Isam Sartawi sublinhavam o corte com o “orgulhosamente sós” salazarento. O nome de Mário Soares somava-se, no estrangeiro, ao de Amália Rodrigues e Eusébio – e que refrescante isso era, mesmo quando se discordava do que dizia!

(Muitos anos depois, após as suas duas presidências, acompanhando-o, ao serviço da RTP, em parte de um conjunto de conversas gravadas que manteve com diversos dirigentes políticos - Fernando Henrique Cardoso, Henry Kissinger, Santiago Carrilho, entre outros – pude ver como Soares era reconhecido por cidadãos de outros países, que se abeiravam dele como Presidente de Portugal. E como gostava desses contactos, sem medos, sem segurança, com um à vontade de velhos conhecidos, tratando de igual modo o poderoso secretário norte-americano e o casal encontrado na sala do pequeno-almoço no hotel.)

Essa experiência internacional esteve, certamente, na génese da sua posição contra a invasão do Iraque que fez colar-lhe – a ele, “o amigo dos americanos”- um novo rótulo de “esquerdista”. 

Nada que o incomodasse. 

Como não o incomodou que o aconselhassem a não se candidatar de novo à Presidência, ele que já fora tudo, já tivera votações recorde, correndo o risco de perder, pior, de se tornar ridículo. Devo dizer que, tendo votado nele nas duas eleições que vencera, nunca tive tanto prazer em apoiá-lo como nessa que perdeu: fiquei-lhe grata por dizer alto que ser idoso não pode significar a morte cívica, a recusa dos sonhos, o amortecer da indignação. 

E é essa a memória que quero guardar de Mário Soares: a do homem capaz de dissenso num país onde se cultiva o consenso hipócrita. Capaz de dissenso no fascismo, capaz de dissenso na democracia que ajudou a construir e a moldar, no partido de que era militante nº 1, até no seu círculo de amigos, onde é tão mais difícil discordar.

Teve sempre razão? Obviamente que não. Errou? Como todos os seres humanos, sim, várias vezes. Foi derrotado? Não é isso o normal nas relações humanas, na democracia? Mas nunca deixou de lutar pelas causas que lhe pareceram justas, e de lutar com alegria,  com a plena convicção de que não tinha de se desculpar por ser político e viver a política com total intensidade, e a certeza de que a política, hoje tão difamada, é uma actividade nobre, digna e generosa.

O que espero fique na memória de todos? O direito à indignação, o prazer de lutar pelo que nos parece justo, quando nos parece justo. A frase que gostava tanto de repetir: “Só é vencido quem desiste de lutar.” 

E, claro, o dissenso. Por muito que, na hora da morte, o queiram tornar consensual.

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Sobre o/a autor(a)

Jornalista, documentarista e investigadora do CES.
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