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Egipto: é preciso ampliar a vitória

Não há como aceitar que após esta poderosa revolução, o poder fique nas mãos dos militares.

A revolução no mundo árabe, que começou com o espectacular derrube da ditadura de Ben Ali, na Tunísia, assestou o seu mais poderoso golpe, na sexta-feria, derrubando o ditador egípcio, Hosni Mubarak, grande “amigo” do presidente americano Barack Obama e também de outros estadistas europeus. Entrou para a história como a “Sexta-feira do Adeus”. E, em todo mundo, já se especula quem será o próximo a cair.

Ainda que os média internacionais queiram convencer todos de que a força reside na organização das redes sociais, da Internet, o que foi visto, tanto na Tunísia como agora no Egipto, foi a entrada em cena de um elemento decisivo: as poderosas greves que se alastraram pelo país, impulsionadas, no Egipto, pelo novo sindicalismo independente. O derrube de Mubarak não é qualquer coisa, já que o Egipto é a principal nação do mundo árabe, com uma população de cerca de 79 milhões, cuja maioria vive próxima aos bancos do Rio Nilo, em grandes concentrações como as cidades do Cairo e Alexandria.

Ainda que a imagem seja a de pirâmides e faraós, a agricultura tem uma destacada importância na vida do país, bem como o petróleo e o turismo. Estima-se que cerca de 3 milhões de egípcios vivam no exterior, na Arábia Saudita e também na Europa. O Egipto ocupa posição estratégica para a manutenção da actual ordem capitalista mundial, que está a ser demolida com as sapatadas das massas sublevadas.

A usurpação militar do poder

As massas egípcias mostraram ao mundo inteiro a força, o vigor e a heróica combatividade, onde dezenas tombaram nos últimos confrontos. Mas a vitória não fez com que a revolução vitoriosa fosse coroada com a subida ao poder dos combatentes da Praça da Libertação. Não se sabe ao certo se o que ocorreu foi um acordo entre Mubarak, as forças armadas e a intromissão do governo americano, ou se os militares deram um golpe contra Mubarak e as massas revolucionárias. Independentemente disso, o facto é que o poder foi passado ou tomado pelos militares, que contam com o apoio da burguesia local, que, evidentemente, tem temor às massas, bem como de outros “amigos” imperialistas, em particular, o imperialismo americano, que não deixou de defender o “amigo”, Mubarak, até o final.

Não há como aceitar, e a história demonstrá-lo-á, que após esta poderosa revolução, o poder fique nas mãos dos militares, que foram fiéis vassalos do ditador Murabak, em particular, o seu leal ministro da defesa, marechal Mohammed Hussein Tantawi, posição que ocupou desde 1991. O marechal é também chefe do Conselho Supremo das Forças Armadas egípcias, cujo contingente é de 450 mil efectivos,

No Egipto de Murabak não faltaram as torturas e prisões arbitrárias. Mas não se trata apenas disso. Os militares também fizeram parte da corrupção no país, amealhando os seus próprios negócios privados. Aceitarão docilmente essa situação as massas egípcias?

Ainda que o corrompido exército egípcio tenha usurpado o poder neste decisivo momento, a luta ainda não acabou. E um factor importante é que a revolução invadiu também as fileiras das forças armadas, o que foi demonstrado através de sucessivas confraternizações entre os soldados e os manifestantes. E não se pode dizer com absoluta certeza que a cúpula militar conta com a fidelidade da maioria dos soldados.

O surgimento da direcção que faltava

Um dos factores que propiciou a usurpação militar foi a fragilidade organizativa das massas revolucionárias. Mas, no dia 25 de Janeiro, em pleno calor da luta, foi fundada, na histórica Praça Tahrir, a nova Federação Egípcia dos Sindicatos Independentes. Formada pelos activistas que, desde o início, se encontravam na praça e foram determinantes na convocação das greves que se alastraram por todo país, constituiu-se no empurrão decisivo para derrubar o ditador Hosni Mubarak. Constituída inicialmente com base em sectores do funcionalismo publico, do professorado e dos trabalhadores da saúde é, sem dúvida, a representação mais legítima surgida neste processo revolucionário

Poder aos sindicatos independentes

Para ampliar a vitória, faz-se necessário que a Federação Egípcia dos Sindicatos Independentes assuma o poder. Esse é, neste momento, o único caminho que permite o aprofundamento da revolução vitoriosa, e não confiar em militares corruptos aliados aos interesses imperialistas. Uma medida que parece ser necessária é a convocação imediata de um amplo congresso nacional da nova federação sindical, com outros sectores do sindicalismo, dos sectores populares oprimidos e também dos soldados. A convocação de tal congresso pode constituir-se num factor decisivo para se instaurar um regime de liberdade, uma das principais aspirações revolucionárias, bem como dar passos decisivos para a reorganização social sob direcção dos trabalhadores, ou seja, um governo dos trabalhadores.

Punição a Hosni Mubarak e ao seu regime

Entre as tarefas democráticas decorrentes da vitoria revolucionária está a punição de Mubarak, do seu vice-presidente, Omar Suleiman, da corte que o rodeava, dos militares responsáveis pelo crimes contra o povo egípcio. É impressionante que toda a polícia do mundo é capaz de pressionar Julian Assange, da WikiLeaks, que desmascarou a diplomacia americana, mas é incapaz de dizer onde se encontra Ben Ali, bem como de entregar Mubarak para ser julgado pelo povo egípcio

A necessidade de uma Assembleia Constituinte democrática e soberana

A vitória na Praça Tahrir precisa ser acompanhada pela formação de um novo regime, e um passo importante nesse sentido é a implementação das tarefas democráticas através da convocação imediata de uma Assembleia Constituinte Democrática e Soberana, onde a população oprimida do Egipto possa decidir sobre a sociedade na qual deseja viver.

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