Eduardo Catroika

porPedro Filipe Soares

20 de abril 2012 - 0:36
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Os portugueses estão entre os que mais pagam pela energia na Europa. Eduardo Catroga não nega a existência de rendas abusivas que são pagas à EDP, mas recusa que elas sejam revistas.

Os portugueses estão entre os que mais pagam pela energia na Europa. Dos combustíveis, à eletricidade, passando pelo gás natural, o país segue no pelotão da frente do pagamento abusivo. O combate a este abuso permitia mais competitividade à economia e um claro desafogo às famílias. Falta um governo que coloque as pessoas e a economia à frente dos lucros das grandes empresas do setor energético.

O diagnóstico à fatura energética é refeito a cada novo governo, só para que se chegue às conclusões que já conhecíamos. Mas, como se sabe, nunca se passa do diagnóstico à cura. Nos combustíveis, Passos Coelho na oposição dizia que se tinha de fazer frente ao abuso, que não podíamos pagar dos combustíveis mais caros da Europa; Paulo Portas irritava-se com a Autoridade da Concorrência e dizia que, se fosse ele a mandar, tudo seria diferente. Agora, com os dois no governo, dizem que nada é possível fazer, o melhor é deixar o mercado funcionar. Seguro, na oposição, pegou na cartilha dos anteriores, esperando que ninguém se lembre de quem esteve no governo e nada fez para resolver o problema. No fundo, muda a banda, mas a música é a mesma e de má qualidade. O problema fundamental que foi a liberalização do mercado dos combustíveis e aí, onde está o abuso e a especulação, nenhum quer mexer. Como diz o povo, “palavras, leva-as o vento”…

O cenário, na eletricidade, é exatamente o mesmo. Todos sabem que há rendas abusivas e que isso tem um enorme peso nas contas. Os preços exorbitantes incluem o abuso de quem se julga acima das pessoas e vê nos sacrifícios dos outros, a recompensa para o seu abuso. Este é o exemplo daqueles que vivem acima das nossas possibilidades, mas nunca são chamados a apertar o cinto.

As palavras recentes de Eduardo Catroga dão conta da arrogância de quem já não pretende sequer esconder o abuso: o agora responsável na EDP não nega a existência de rendas abusivas que são pagas à EDP, mas recusa que elas sejam revistas. Diz que se essas rendas já existiam antes da privatização, que não devem desaparecer. Afinal, segundo ele, a privatização não foi só da empresa, mas, também, dos benefícios. E, se nos “benefícios” dos trabalhadores podemos cortar, o que diz ser sagrado são os benefícios das grandes empresas como a EDP, cujos lucros anuais são pornográficos. Este é o exemplo de quem já não percebe o ridículo em que caiu, mas perdeu a legitimidade de se dirigir aos portugueses.

Eduardo Catroga foi o responsável do PSD pela negociação que o partido realizou com o governo de José Sócrates para a aprovação do Orçamento de Estado de 2011. Foi o responsável pela equipa do PSD que negociou com o memorando de entendimento com a troika e saiu do seu próprio cunho o programa eleitoral desse partido. Depois, espanta o país com a sua nomeação para a nova administração da EDP privatizada e os seus 700 mil euros anuais de salário. Agora, vem dizer que os sacrifícios para as pessoas são inevitáveis, mas que na EDP ninguém pode tocar. Afinal de contas, Catroga explica bem porque foi escolhido para a EDP: conhece os meandros do poder, negociou a austeridade com a troika e é o salvo-conduto para o regafoge das rendas abusivas no setor energético. Eduardo, com a troika, dirá que é preciso mais flexibilidade para haver competitividade, desde que isso não mexa na rigidez do peso da fatura da eletricidade e dos lucros milionários da EDP. Verdadeiramente de pôr os olhos em bico.

Pedro Filipe Soares
Sobre o/a autor(a)

Pedro Filipe Soares

Deputado, líder parlamentar do Bloco de Esquerda, matemático.
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