O bloqueio a Cuba é quase tão antigo como a revolução cubana. Entrou em vigor a 7 de Fevereiro de 1962, pouco mais de 3 anos depois da vitória dos rebeldes e dura até hoje. Houve flutuações na sua violência, mas o lastro das consequências económicas e sociais é avassalador e constitui uma das mais dramáticas e duradouras agressões alguma vez concretizadas contra um país, por meios predominantemente não-militares.
O bloqueio marca o momento em que os Estados Unidos desistiram oficialmente de cooptar o regime cubano, uma estratégia seguida nos primeiro meses da revolução, e que levou ao reconhecimento quase imediato do governo cubano, poucos dias depois da insurreição de 1 de Janeiro de 1959. Os Estados Unidos sempre mantiveram ótimas relações com a ditadura de Fulgêncio Batista, uma ditadura extraordinariamente corrupta, que conferiu ao pequeno país o epíteto pouco lisongeiro de “Prostíbulo da América”. A ilha atingia níveis de miséria abjetos, mesmo para os padrões da américa latina à data. O apodrecimento avançado desta ditadura e a imensa popularidade dos revolucionários cubanos aconselhava uma estratégia de captura em detrimento da confrontação.
Ainda em Abril do mesmo ano, Castro chegou a reunir com o vice-presidente Nixon.
Mas a reunião não correu bem, pelo menos na perspetiva da administração norteamericana, e deu origem ao que a administração designou como “política de contenção”. Depois da reforma agrária e da aproximação de Cuba à União Soviética, a contenção acabou. Em abril de 1961, os Estados Unidos tentaram a invasão, no célebre fiasco da “baía dos porcos”, um dos fracassos mais humilhantes da história militar dos Estados Unidos. Em Fevereiro de 1962, os Estados Unidos iniciam o mais longo embargo económico da história mundial.
Na véspera da entrada em vigor do bloqueio, Kennedy, o Presidente que o decretou, encomendou para si próprio 1200 charutos cubanos. Um gesto irrelevante, mas cheio de significado. A decisão do bloqueio não resultava de nenhuma consideração ética ou humanitária. Quaisquer proclamações de natureza humanitária ou democrática (e não foram poucas) eram pura hipocrisia. Os Estados Unidos tinham perdido uma das suas ditaduras e queriam-na de volta. Perante o falhanço da cooptação e da invasão, o bloqueio foi a opção seguinte.
O propósito era transparente: criar dificuldades económicas e sociais que levassem os cubanos a revoltarem-se contra o regime. Este tornou-se o guião para dezenas de operações de desestabilização de governos um pouco por todo o mundo. As operações variaram na eficácia, a natureza dos regimes e governos visados também, mas todas representaram punições coletivas de povos inteiros. As nações unidas e organizações humanitárias um pouco por todo o mundo têm ampla evidência empírica sobre as consequências humanitárias e políticas desta forma de agressão.
Ao longo das décadas, as intervenções militares e as operações de mudança de regime foram ganhando má reputação. Os pretextos foram perdendo credibilidade. As invasões tornaram-se intervenções humanitárias as operações de mudança de regime passaram a ser de “democratização” e a desestabilização das economias e serviços públicos de países já de si frágeis passou a ser feita em nome dos direitos humanos. Este conjunto de metamorfoses eufemísticas só foi possível com doses crescentes de cinismo. A guerra do Iraque, sob o falso pretexto das armas de destruição massiva e o falso propósito da democratização do país, constitui um episódio particularmente trágico e revelador desta doutrina, mas a lista é extensa e continua em expansão.
Trump candidatou-se com uma agenda de abandono dessa política externa. Prometeu acabar com as guerras em curso e não começar nenhuma. Nem uma coisa, nem outra. O “América primeiro” transformou-se em “pressão máxima” e Trump começou a dar a volta ao mundo em ameaças, incluindo aos seus aliados, ou aos que o julgavam ser. Trump dispensou também o cinismo. A invocação da proteção dos interesses económicos e geopolíticos dos Estados Unidos regressou na forma mais nua e mais crua. E os pretextos, quando sequer mencionados, passaram a ser notas de rodapé, para as quais a atual administração nem se dá ao trabalho de inventar provas. É ver a extraordinária declaração de Trump sobre o golpe na Venezuela, em que o objetivo de controlo do regime e do petróleo é proclamado com total descaramento..
É nesta política que se insere a guerra agora iniciada com Cuba. Ao bloqueio de décadas, soma-se agora um bloqueio naval a todo o fornecimento de combustíveis e ameaças a todos os países que se atrevam a vender seja o que for a Cuba. Tudo isto é criminalidade internacional da mais grave e as suas consequências sobre as infraestruturas mais elementares que sustentam a vida naquela ilha são ainda mais criminosas. O esforço para provocar um colapso energético na ilha é uma agressão generalizada a toda a população, semelhante a um bombardeamento, a não ser no espetáculo. A outra diferença é que esta forma de agressão atinge prioritariamente os mais vulneráveis. É um ato de terrorismo de Estado e está longe de ser isolado.
A questão é a de saber quantas destas guerras serão necessárias para que a Europa se mobilize para liderar ou pelo menos integrar uma oposição global a esta política? As posições europeias e nacionais mais recentes traçam um cenário deprimente: algumas referências genéricas aos direitos humanos e ao direito internacional e, no caso de Cuba, nem isso. As lideranças europeias só querem ser deixadas de fora das guerras de Trump. Se assim for, o resto do mundo pode arder. Se isso acontecer, qualquer resquício de credibilidade das lideranças europeias arderá na mesma fogueira.
Não vale a pena, por isso, dialogar com teses sobre a libertação da ilha, a via autoritária para a democracia ou os propósitos humanitários que norteiam a decisão de cortar a luz a hospitais. Já ninguém acredita nessa conversa, incluindo e sobretudo os que a fazem. Já nem Trump se dá ao trabalho de se explicar. Faz porque pode, porque quer e porque sabe que meio mundo e toda a Europa ficarão calados. Proclama alto e bom som que o faz porque pode e vai continuar a fazer. Não é nada de novo. É só imperialismo.