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É preciso recuperar o sector ferroviário

A anunciada admissão de pouco mais de 100 novos trabalhadores para a EMEF não altera nada de substancial. Destes, 40 já lá trabalharão, contratados a prazo.

Ultimamente, têm vindo a suceder-se a supressão de comboios, os atrasos, as avarias em plena via, a suspensão da venda de bilhetes e as condições de extrema incomodidade para os passageiros.

O material circulante não é substituído há já muitos anos; o que ainda funciona vai-se degradando, sem as manutenções adequadas. Muitas composições estão imobilizadas, já inoperantes. Há tempos, ocorreram vários descarrilamentos, por deficiente manutenção da via.

Os responsáveis e os próprios trabalhadores da EMEF, empresa onde é mantida e reparada a frota da CP, há muito reclamam a entrada de gente nova para os quadros. Quando estive nas oficinas da EMEF - Entroncamento, na última campanha eleitoral para as eleições legislativas, todos apontaram o envelhecimento e a falta de pessoal como o principal problema da empresa. Foi em 2015 — já lá vão 3 anos!

Em junho último, as Comissões de Trabalhadores do setor ferroviário lançaram um derradeiro grito de alerta sobre as ameaças que, por falta de investimentos e de pessoal, impendiam sobre a regularidade e a segurança da circulação ferroviária. “O nosso caminho de ferro ainda é seguro, mas a continuar assim, se nada for feito, pode haver uma desgraça”, afirma Fernando Semblano, porta-voz da Comissão de Trabalhadores (CT) da IP-infraestruturas de Portugal, em declarações à mais recente edição do Expresso.

A anunciada admissão de pouco mais de 100 novos trabalhadores para a EMEF não altera nada de substancial. Destes, 40 já lá trabalharão, contratados a prazo.

Todos os responsáveis políticos conhecem o problema, há muitos anos. Quem manda optou por deixar avançar a degradação do serviço, por não fazer atempadamente os investimentos em novo material circulante, por não contratar ferroviários, por cativar investimentos programados. Foram opções de sucessivos governos do PSD e do PS, mais preocupados em pagar uma dívida externa insustentável e com o chamado “rigor orçamental”.

Bruxelas manda... E em 2020 será aberto aos operadores privados a operação do longo curso, a mais rentável. Ao impedir a aquisição ou aluguer de composições para este serviço, o atual governo está a abrir caminho à concorrência.

Esta extrema degradação do serviço público ferroviário prejudica o país, num serviço absolutamente essencial à mobilidade dos cidadãos e à atividade económica.

É preciso investir a sério da ferrovia. Na próxima sessão legislativa, a partir de setembro, o governo vai ter de explicar, na Assembleia da República e sem subterfúgios retóricos, o que vai fazer para recuperar este sector vital.

Sobre o/a autor(a)

Deputado, eleito pelo círculo de Santarém, e coordenador do Bloco na comissão parlamentar de agricultura e mar. Engenheiro técnico de comunicações
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