À medida que o neo-liberalismo se foi instalando como ideologia dominante, muitas ONGs ambientalistas cederam à lógica do mercado. A política de confrontação e denúncia dos grandes poluidores deu lugar à cooperação e à certificação ambiental. A oposição às políticas de mercado, como eco-taxas ou mercados de emissões, vistas inicialmente como uma forma de os poluidores comprarem o direito de poluir, deu lugar à aceitação de um ideal de “capitalismo verde”. Chegamos hoje ao cúmulo de ter ONGs que são pouco mais que porta-vozes da indústria.
A linha está traçada entre quem quer defender o meio ambiente em que vivemos contra a voracidade do lucro e quem prefere limpar a imagem dos poluidores a troco de dinheiro. Em Copenhaga, durante a cimeira climática de 2009, centenas de movimentos sociais encontraram-se sob o lema “mudemos o sistema, não o clima”, confrontando os interesses daqueles que lucram com a crise climática. Do outro lado da barricada, as ONGs com fortes ligações aos grandes poluidores, como a WWF, juntaram-se na campanha “Tck Tck Tck”, que exigia apenas um acordo “justo, ambicioso e vinculativo”. Não é difícil perceber porque não há uma mistura entre estes dois mundos – enquanto uns defendem as medidas necessárias para acabar com a dependência de combustíveis fósseis, outros ficam-se por slogans vazios de conteúdo, para não ofender as empresas que os financiam.
Algo está a mudar no ecologismo. Os movimentos pela justiça ambiental estão a organizar-se, a conquistar espaço e a marcar a agenda política. Movimentos locais interligam as questões ambientais com os problemas sociais, mostrando que a degradação ambiental, tal como a pobreza, a fome e a guerra, tem a sua raiz na acumulação de capital. A apoiá-los estão grandes redes internacionais, como a Via Campesina, o Friends of the Earth (FoE) ou a Rede Ambientalista Indígena (RAI). A combatê-los estão os industriais que lucram com a destruição do ambiente, os políticos que os protegem e as ONGs que limpam a sua imagem.
O conflito é inevitável. Recentemente, por exemplo, um grupo de ONGs, incluindo a Greenpeace, assinou um acordo com a indústria madeireira do Canadá, supostamente para conseguir a preservação de 40% da floresta boreal. O acordo foi imediatamente repudiado pelas Primeiras Nações do Canadá. Os indígenas criticaram duramente as ONGs que assinaram o acordo, já que, apesar de serem os habitantes das florestas, não foram consultados em todo o processo. A RAI criticou também o facto de o acordo abrir a porta para a mercantilização das florestas pela via de venda de créditos de carbono.
Vários movimentos ecologistas juntaram-se aos indígenas para expressar a sua indignação com um acordo que foi elaborado de forma anti-democrática. As discussões foram tidas à porta fechada e o texto do acordo é confidencial. Quando um grupo de media independente, o Vancouver Media Co-op, divulgou o texto do acordo toda a gente percebeu o porquê deste secretismo: o acordo resultará no fim de todas as acções de campanha contra a indústria madeireira pelas ONGs a troco de uma deslocação temporária da desflorestação do habitat das renas para outras áreas da floresta boreal. Pior, a madeira proveniente de zonas desflorestadas será agora certificada como “ecológica”, com o aval das ONGs signatárias.
Estes representantes do “ambientalismo corporativo” são os mesmos que legitimaram a campanha de limpeza de imagem que a BP tem feito na última década. A petrolífera pretendeu afirmar-se como uma empresa preocupada com a preservação do ambiente, tendo usado o slogan “Beyond Petroleum” enquanto continuava a poluir o mundo. Uma ambiciosa campanha de propaganda entrou então em vigor, tendo a BP investido milhões em publicidade enganosa e em pagamentos (subornos?) a algumas ONGs ambientalistas que alinharam na jogada. A ironia de cooperar com um grande poluidor não tirou o sono a estes “ambientalistas” e ainda hoje, enquanto a plataforma Deepwater Horizon continua a despejar milhares de barris de petróleo no Golfo do México todos os dias, a BP tem uma influência preponderante na actividade de muitas grandes ONGs.
No processo de mudança social, há um lugar para o confronto e um lugar para a cooperação. Uma ONG ambientalista que opte por cooperar com um poluidor, contudo, está a entrar em confronto com as vítimas da poluição, que era suposto defender. Ao entrar por essa via, passa a fazer parte do problema e não da solução.