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Do comadrio europeísta

No discurso de encerramento da X convenção do Bloco, Catarina Martins avisou que Portugal não aceitaria pacificamente a aplicação de sanções pela comissão europeia. Tanto bastou para que algumas almas pias se alarmassem.

No discurso de encerramento da X convenção do Bloco, Catarina Martins avisou que Portugal não aceitaria pacificamente a aplicação de sanções pela comissão europeia, pelo incumprimento das metas do governo anterior e falou da possibilidade de um referendo, caso aquela agremiação - não eleita - persistisse na sua sanha punitiva.

Tanto bastou para que algumas almas pias se alarmassem (qual taróloga em direto televisivo de duvidoso interesse público, desta vez sem lançarem cartas) predizendo um negro futuro para o país caso tal possibilidade se concretizasse.

A solução -afiançam tais comadres, na mesma linha de raciocínio da infeliz futuróloga - será então ser carinhoso com o agressor, na esperança que ele, condoído, corrija o seu comportamento sádico.

Portanto, temendo o revanchismo da comissão europeia, já se vai sugerindo por aí que se vier tareia, a culpa será de quem denuncia a violência doméstica e não a de quem empunha o chicote e se entusiasma com o seu uso.

Ignoram as comadres que a violência vicia o agressor e transforma tanto quem a exerce como quem dela é vítima. E assim se perpetua o ciclo maldito da violência doméstica.

A “casa comum europeia” não pode portanto ser o lugar onde aguardamos novos castigos na esperança de reconciliações milagrosas e definitivas, pois a necessidade de castigar não se relaciona com os erros da vítima mas com a sensação de impunidade do agressor.

Enquanto exercer o seu violento poder, nada deterá a comissão europeia, desejosa de usar Portugal como exemplo para atemorizar outros países do harém em que se transformou esta UE, com a preciosa ajuda de uns tantos eunucos que vivem no terror de serem expulsos de uma casa que garantindo-lhes um teto e uma ração, não deixa de os oprimir também.

Só podemos portanto deplorar o vil servilismo dos que exultam quando o chicote desce sobre outras vítimas (vimo-lo no caso grego) e insistem em culpar os denunciantes das grandes tareias que, pela submissão assumida, têm mais certas que ao pão para a boca.

Sejamos dignos: é tempo de declarar esgotado o tempo dos maus tratos e deixar de colaborar com o agressor dizendo que “caímos nas escadas” cada vez que os algozes decidem empunhar o bastão, o chicote ou o cinto para nos desfigurarem o rosto.

Sobre o/a autor(a)

Professor. Cabeça de lista do Bloco de Esquerda no círculo de Viseu, nas eleições legislativas de 2015
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