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Discursos de ódio

Para Trump, as causas das matanças estão longe de serem o ódio gerado pelo racismo e o discurso supremacista branco ou a facilidade com que se consegue aceder a armas de fogo.

“Terrorismo doméstico” é como estão a ser consideradas as carnificinas que ocorreram em duas cidades norteamericanas no passado fim de semana. A escolha do termo é das autoridades federais daquele país, mas está bem distante da forma como o Presidente dos EUA, Donald Trump, abordou o problema. Segundo ele, são ações de doentes mentais carregados de ódio.

A escolha da terminologia não é apenas um acaso semântico, faz toda a diferença na forma como se aborda o terrível problema. Para Trump, as causas das matanças estão longe de serem o ódio gerado pelo racismo e o discurso supremacista branco ou a facilidade com que se consegue aceder a armas de fogo, consequência da pressão do poderosíssimo lobby que defende a posse livre de armas de fogo. Utilizando o preconceito contra as doenças mentais e tentando colocar todo o foco nas responsabilidades individuais dos assassinos, Donald Trump escamoteia as suas próprias responsabilidades e o caldo de preconceito social que tem potenciado.

É certo que o ascenso do discurso nacionalista e supremacista branco já existia nos EUA antes de Trump chegar à presidência. Há dez anos foi publicado um relatório de uma agência federal de segurança interna que alertava para um ascenso do extremismo de direita, incluindo o terrorismo racista dos supremacistas brancos. Segundo essa análise, a eleição de Barack Obama, o primeiro Presidente negro da história dos EUA, tinha criado um terreno fértil para a radicalização da extrema direita e indicava que muitos dos veteranos da guerra do Afeganistão ou do Iraque poderiam ser potenciais alvos para recrutamento. Os urros conservadores não se fizeram esperar e exigiram indignados que a agência se retratasse e retirasse o relatório, o que veio a acontecer. A Legião Americana chegou mesmo a declarar que “os inimigos não são os americanos, são os terroristas”, numa clara posição xenófoba que absolvia os extremistas locais. A equipa que fez o relatório foi separada e os seus analistas direcionados para casos de extremismo islâmico.

A conclusão que agora podemos retirar é que as pessoas ou grupos sociais que são vítimas da violência dos supremacistas brancos têm razão para desconfiar dos esforços públicos para os defender desse radicalismo. É de relevar, por isso, a mudança de posição das agências federais que agora classificam inequivocamente de terrorismo as chacinas que sucederam. Que seja um virar de página positivo.

A novidade que Trump trouxe foi a legitimação institucional e o apoio público ao discurso supremacista branco. Os termos usados são inequívocos e, no passado sábado, as influências foram incontornáveis: o terrorista de El Paso deixou um manifesto na internet onde partilhava a linguagem presidencial. Desde que lançou o movimento eleitoral para a sua reeleição, a campanha de Trump já pagou mais de 2000 anúncios na rede social Facebook onde alertava para uma “invasão” de imigrantes, a mesma designação usada pelo terrorista. Os discursos de ódio matam e os EUA demonstram a terrífica dimensão dessa realidade.

Não podemos dizer que Trump é um caso isolado, sei disso. Esta nova leva de discursos de ódio já chegaram à Europa, passando pelo Brasil. Contudo, é certo que a extrema direita não tem angariado grande apoio em Portugal. O nosso país ainda se mostra imune ao vírus dos discursos de ódio. Mas esta é uma batalha onde nunca devemos baixar as defesas. A nossa Constituição interpela-nos a isso, condenando toda e qualquer discriminação, a promoção do ódio e da violência e proibindo organizações racistas ou que perfilhem a ideologia fascista.

Talvez por causa da nossa situação excecional, a extrema direita europeia escolheu o nosso país para se reunir. Esta reunião parece ser claramente contrária à nossa Constituição e, por isso mesmo, devia ser repudiada e impedida pelo Governo. Com presença confirmada estão grupos e indivíduos condenados por violência e por crimes de ódio e na convocatória há um apelo à violência racista. Aceitar com passividade este concílio de terror não pode ser uma opção e por isso mesmo terá lugar uma concentração antifascista para este sábado, às 13h, no Rossio, em Lisboa. Para afirmar alto e a bom som que os discursos de ódio não têm lugar em Portugal.

Nota: o autor refere-se à concentração que aconteceu sábado dia 10 de agosto passado.

Artigo publicado no jornal Público no dia 09 de agosto de 2019.

Sobre o/a autor(a)

Deputado, líder parlamentar do Bloco de Esquerda, matemático.
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