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Deportar um ativista curdo para a Turquia é um ato terrorista

O Governo dos Estados Unidos está a tentar deportar Ibrahim Parlak para a Turquia, onde ele teme, com razão, que possa ser enviado para a prisão, torturado e possivelmente assassinado.

Na pitoresca cidade turística de Harbert, Michigan, encontra-se um modesto restaurante cujo proprietário e administrador é considerado um homem fundamental na sua comunidade. O Café Gulistan é propriedade de Ibrahim Parlak, um exemplo clássico da história de sucesso de um imigrante. Só que há um problema: o Governo dos Estados Unidos está a tentar deportá-lo para a Turquia, onde teme, com razão, que possa ser enviado para a prisão, torturado e possivelmente assassinado. Após ter vivido 25 anos nos Estados Unidos, tem agora cerca de 75 dias para impugnar a sua deportação.

Ibrahim Parlak é curdo, nasceu na região da Anatólia, Turquia, em 1962. A sua infância foi marcada pela crescente repressão do Governo turco contra a minoria étnica curda. A Turquia proibiu que se falasse o idioma curdo, bem como as expressões culturais curdas e tentou integrar à força a população curda para destruir o seu património cultural. Parte da resistência a esta integração forçada incluiu manifestações e organização comunitária, mas também, na década de 1980, a resistência armada do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK). Na sua adolescência, no final da década de 1970, Ibrahim Parlak foi preso durante três meses por ter participado em protestos pacíficos. Mais tarde, mudou-se para a Alemanha para evitar a repressão do Governo turco. Durante a sua estadia nesse país continuou a ser um membro ativo do movimento pela autonomia curda: organizou atividades culturais e recolheu fundos para o braço político, não militar do PKK, conhecido como Frente Nacional de Libertação do Curdistão. Depois de sete anos na Alemanha, Parlak decidiu que poderia apoiar melhor a causa curda a partir do seu Curdistão natal.

A Turquia tinha anulado o seu passaporte, pelo que decidiu entrar na região curda da Turquia diretamente da Síria. Quando o seu grupo estava a cruzar a fronteira, receberam disparos. A seguir, houve um tiroteio em que morreram dois soldados turcos. Meses mais tarde, Parlak foi preso pelas autoridades turcas e acusado de “separatismo”, apesar de nunca o terem acusado de ter matado os dois soldados. As autoridades turcas confirmaram que Parlak não efetuou disparos nessa noite.

Parlak contou no programa Democracy Now!: “Detiveram-me e enviaram-me para a prisão por um mês, onde me maltrataram e torturaram. E, certamente, não é uma experiência agradável de recordar”. É visível a dor que causa a Parlak recordar o sucedido. A descrição que figura no seu processo, apresentado perante o tribunal de apelação dos Estados Unidos em 2007, é arrepiante: “A polícia turca aplicou-lhe choques elétricos, golpeou-o nos genitais, pendurou-o pelos braços, vendou-lhe os olhos e privou-o do sono, de alimentos, de água e de roupas durante quase um mês. Nesse mesmo período também foi violado com um cassetete. Nesta segunda ocasião, Parlak esteve preso durante cerca de um ano e meio.

Finalmente, viajou para os Estados Unidos, onde obteve asilo e começou um longo processo para reorganizar a sua vida. Ibrahim Parlak obteve autorização de residência e em 1999 pediu a cidadania. Na época, o Departamento de Estado tinha qualificado o PKK de organização terrorista, de modo que o facto de o nome do grupo ter sido mencionado no seu processo atrasou o seu pedido. Após os atentados do 11 de setembro, o processo para a obtenção da cidadania foi alterado. Os burocratas do recém criado Departamento de Segurança Nacional procuravam incansavelmente terroristas em mesquitas, parques, escolas, em todos lados. Ibrahim Parlak caiu-lhes como sopa no mel e o sonho americano que construiu começou a desmoronar-se.

Prenderam-no e enviaram-no para a prisão à espera de ser deportado. O apoio comunitário que Parlak recebeu foi incrível. Um ex-advogado de contraterrorismo do FBI ofereceu-se para representá-lo. As pessoas com quem trabalhou durante anos e até a polícia local testemunharam sobre a sua personalidade. Depois de dez meses num cárcere do condado, um juiz federal ordenou que o libertassem com o argumento de que, em palavras textuais, “foi um imigrante modelo. …Não representa uma ameaça para ninguém nem representa nenhum risco de fuga. Tem fortes vínculos com a sua comunidade”.

Desde então, o processo de deportação de Parlak está na denominada fase de “ação diferida”, o que significa que está livre mas pode ser detido e deportado para a Turquia em qualquer momento. Parlak conta com o apoio do congressista republicano Fred Upton e teve o apoio do Senador democrata do Michigan Carl Levin, até que Levin se reformou no ano passado. Os seus apoiantes estão a solicitar aos senadores Debbie Stabenow e Gary Peters, ambos democratas, que apresentem um projeto de lei para proteger Parlak, mas até a data nenhum o fez. O decano da Faculdade de Direito da Universidade de Chicago solicitou a Obama que lhe outorgue o perdão.

Entretanto, a Turquia aumentou os ataques militares contra os curdos e impôs um severo recolher obrigatório e forte censura contra qualquer dissidente. Muitas pessoas preocupam-se com o grave perigo que Parlak enfrenta, se for deportado para a Turquia. O seu advogado, Rob Carpenter, disse-nos que Parlak recebeu “ameaças privadas no Facebook que fazem menção a formas de como foi torturado que nunca antes foram tornadas públicas, o que indica que deve tratar-se de um dos guardas que o torturou durante os dezassete meses [em que esteve preso] antes de fugir para os Estados Unidos”.

Ibrahim Parlak voltou a trabalhar no seu Cafe Gulistan, mas o seu futuro é incerto. O Governo dos Estados Unidos sustenta que é um terrorista, apesar de nunca ter sido acusado de cometer atos de violência. Deportá-lo constituiria, de facto, um ato terrorista.

Artigo publicado em Democracy Now a 7 de janeiro de 2016. Denis Moynihan colaborou na produção jornalística. Texto em inglês traduzido por Mercedes Camps para espanhol para Democracy Now. Tradução para português de Carlos Santos para Esquerda.net

Sobre o/a autor(a)

Co-fundadora da rádio Democracy Now, jornalista norte-americana e escritora.
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