A democratização do Ensino Superior

porFrancisca Sousa

06 de janeiro 2026 - 13:16
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As residências universitárias são mais do que meras infraestruturas – são instrumentos de justiça social. Ignorar este facto é comprometer o futuro do Ensino Superior. As declarações do ministro da Educação sugerem uma elitização das residências e do Ensino Superior – quase como uma escolha de quem vai para lá.

Na passada terça-feira, o ministro da Educação prestou polémicas declarações. Fernando Alexandre atribuiu o rápido degradar das residências universitárias aos estudantes mais desfavorecidos – declaração que, depois da revolta de muitos, veio a desmentir. Porém, é tarde demais. Todos viram e ouviram aquele que, no fundo, é um discurso que espelha a elitização do Ensino Superior que um governo de direita quer trazer – assim como uma visão limitadora do papel das residências universitárias.

Com o fim do Ensino Secundário, muitos querem seguir para o Ensino Superior. No entanto, ir para o Ensino Superior significa, para muitos, estudar longe de casa – à despesa das propinas soma-se, assim a despesa do alojamento, não esquecendo a comida e as restantes contas do mês. Com todos estes custos, todos os anos os sonhos e aspirações de muitos jovens portugueses são destruídos, pois não têm como pagar todas estas contas. Aquele que é um direito social – o direito à Educação – é, então deixado para trás, ao abrigo da carência de soluções para esta questão.

Aqui surgem as residências – uma opção viável para permitir o acesso dos estudantes ao Ensino Superior. Mas o problema para a falta de existência de residências para todos os estudantes e da degradação das residências já existentes serão as pessoas? Ou existe antes uma ausência de investimento nestas habitações e na sua manutenção? Ao invés de fazer uma crítica que está errada a vários níveis, o foco do governo e de um ministro que tem nas suas mãos a questão da Educação deveria ser a permissão do acesso a este direito por todos e todas que queiram continuar os estudos para além do ensino obrigatório. Para tal, devem ser criadas condições, que abrangem não só as residências, como também os transportes acessíveis a todos e até mesmo o fim das propinas.

Ter mais residências significa trazer mais igualdade no Ensino Superior, significa democratizá-lo e pôr em prática os valores de Abril. As residências universitárias são mais do que meras infraestruturas – são instrumentos de justiça social. Ignorar este facto é comprometer o futuro do Ensino Superior. As declarações do ministro da Educação sugerem uma elitização das residências e do Ensino Superior – quase como uma escolha de quem vai para lá. Parafraseando Catarina Martins num vídeo que a candidata à presidência da República fez acerca deste assunto, declarações como esta são erradas de tantas formas que é difícil acreditar que seja verdade – que um ministro assuma que, porque as pessoas degradam porque têm menos condições económicas; a escolha da crítica, do ódio, ao invés da sugestão de soluções democráticas.

Artigo publicado em Página Vimaranense a 22 de dezembro de 2025

Francisca Sousa
Sobre o/a autor(a)

Francisca Sousa

Professora. Dirigente distrital de Braga do Bloco de Esquerda
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