A democratização da cultura: quantos passos atrás até não haver retorno?

porAna Durães

19 de julho 2022 - 10:48
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Os museus sob a alçada da DGPC passam agora a ser gratuitos até às 14 horas aos domingos. A nova medida que entrou em funcionamento já no dia 3 de julho veio reduzir o acesso democrático à cultura.

Os museus sob a alçada da DGPC passam agora a ser gratuitos até às 14 horas aos domingos. A cultura e a democracia necessitam uma da outra para funcionar, mas para o novo ministro ambas são dispensáveis.

A nova medida que entrou em funcionamento já no dia 3 de julho veio reduzir o acesso democrático à cultura. Ao reduzir o horário em que estes possuem entrada gratuita e ao retirar os feriados, reduz quem pode ter acesso ao nosso património.

Segundo Pedro Adão e Silva, os monumentos e museus, por não terem uma maior autonomia de gestão, não conseguem gerar receitas próprias; acrescentou também na Comissão de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto que não era no Orçamento de Estado que se deveria fazer política em determinados setores e que o tema da bilhética e gratuitidade poderão ter o seu espaço de discussão fora do contexto do mesmo.

Num aspeto poderei concordar com Adão e Silva, o nosso património carece de receitas suficientes para a sua manutenção e melhoramento, seja disso exemplo o Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, mas vejo-me obrigada a discordar de tudo o resto. O que se passa no setor cultural do nosso país é fruto de uma contínua desvalorização do mesmo, colocando-o sempre em segundo plano, principalmente na questão do investimento. Se não temos nem 1% do Orçamento de Estado, como acha o Partido Socialista que a cultura havia de estar? Neste momento, posso afirmar que se encontra sujeita a “remendos”, dependente de uma política económica neoliberal e onde se esquece a importância desta a nível social.

Quando se reduz o acesso gratuito à cultura, reduz-se a democracia da mesma. Os espaços culturais são locais de aprendizagem e, muitas vezes, integração social. São locais onde todos são iguais e portas são abertas à descoberta do conhecimento, quer a nível artístico, quer a nível histórico.

Quando o acesso à cultura fica ainda mais constrangido, temos pessoas que são automaticamente excluídas de usufruir destes lugares. Os museus evoluíram de coleções privadas mesmo por isto, para que mais pessoas tivessem acesso às produções artísticas. Famílias, pessoas com menos posses, pessoas da terceira idade e jovens que se encontram em situação precária ficam com o seu acesso a estes espaços gravemente reduzido.

O nosso património não é apenas para ser visitado nas épocas turísticas por quem tem posses para tal, mas sim por estudantes do ramo da História, História da Arte, Belas Artes e outros; é para ser visitado pelas crianças que se encontram em crescimento, crescimento esse também intelectual e onde vão ser estimuladas e apresentadas a partes da história que nunca antes ouviram; é para a classe trabalhadora que vive apenas do seu trabalho e tem direito a atividades de lazer e aprendizagem que não signifiquem mais um corte nos orçamentos; é para ser visitado pelas comunidades que Portugal e o mundo marginalizou, colocando-as em situações de pobreza geracional, dando assim verdadeiros passos na inclusão social.

A cultura foi feita pelas pessoas. Privar-nos e reduzir a sua acessibilidade é de um elitismo digno do liberalismo económico, descartando assim a responsabilidade do Estado de a manter para as suas pessoas.

Ana Durães
Sobre o/a autor(a)

Ana Durães

Estudante da Licenciatura em História da Arte. Ativista pela cultura, educação, causas lgbtqia+, feminista e antirracista.
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