Está aqui

De Pé, ó vítimas do susto!

Inês Teotónio escreveu no Jornal I “De pé, ó vítimas de Costa” é o título de um texto que combina o insulto gratuito com a análise deturpada dos problemas do país e da Europa. Inês Teotónio está assustada. E os filhos temem por isso.

“Mãe, o que é que acontece se os comunistas ou o BE ganharem as eleições?”, “Emigramos… Pedimos o estatuto de refugiados políticos e emigramos”.

O texto traz confusão, traduz uma imagem de medo. No entanto, corporiza um discurso conservador e populista sobre quem hoje governa com a Constituição e não contra ela. Por isso, achei pertinente comentar. Há afirmações graves neste discurso, ainda que vazio, mal fundamentado, baseado em ideias feitas, desvirtuando a verdade dos factos e, mais grave ainda, usando e abusando de assuntos sérios como o da emigração ou o dos refugiados.

Começando pela cronista que “escreve ao sábado”. Inês Dória Nóbrega Teotónio Pereira Bourbon Ribeiro, colunista do Jornal I e mãe, é também deputada no círculo eleitoral de Lisboa pelo CDS-PP.

Quanto ao conteúdo da crónica apresentada como “De pé, ó vítimas de Costa”, que é o que nos interessa desmontar, mal começamos a ler, deparamo-nos com uma monumental capacidade para distorcer a realidade: “Eles ambicionam emigrar para andarem de avião e dormirem num hotel”. É de facto irónico que, quando toda a gente conhece a situação dos refugiados políticos vindos da Síria, Afeganistão, Eritreia, Kosovo, milhares de crianças provenientes das zonas de conflito ficaram sem família e atravessam a Europa sem pais com a onda de refugiados, há famílias que transportam crianças consigo para a Europa, como o menino Aylan Kurdi encontrado morto numa praia turca e cuja fotografia comoveu o mundo, tendo morrido pelo menos 3.279 pessoas em 2014 e 2.373 pessoas em 2015 (números oficiais, datando de setembro de 2015, e que dão conta apenas dos casos de que há conhecimento), por virem para a Europa em condições ilegais, miseráveis e que atentam contra a sua vida, em transportes marítimos que nunca saberão se irão chegar a um qualquer destino mas onde arriscam ir desde que se vejam longe dos conflitos violentos que acontecem nos seus países, a dormirem onde calhar, sem acesso a comida ou a qualquer bem básico de subsistência e onde lhe são erguidas barreiras, quer em arame farpado, por muros, quer pelas forças policiais de alguns países, venha alguém dizer que por haver possibilidade de o seu partido, em quarto lugar nas votações para as legislativas não constituir governo, vai emigrar, facto muito bem recebido pelos filhos porque irão “andar de avião e dormir num hotel”.

A crónica prossegue. A senhora e a sua família lá se tranquilizaram porque o PAF – Portugal à Frente (PSD/CDS) tinham ganho as eleições. Mas “a semana passou com tranquilidade” e, a dada altura, acabou por perceber que a esquerda estaria aberta a negociações. Acordou um bocado tarde, visto que esta abertura já tinha sido expressa pelo Bloco de Esquerda, pela voz de Catarina Martins, no debate com António Costa, assim como na noite eleitoral. Quando se apercebeu da possibilidade de diálogo à esquerda, esta senhora e os seus seis filhos “anteciparam o caos”, um caos algo surrealista e digno de filme.

Enunciando os indícios de caos, enumera “gritos na televisão, empresas a fechar, os juros da dívida a disparar, investimento em queda, greves, pensões em atraso, FMI, Banco Central e Comissão Europeia ameaçam um conjunto de previsões se o Tratado Orçamental não for cumprido, Ricardo não sei quê Mamede substitui Marcelo nos comentários de Domingo”.

Em Portugal, há quem antecipe o caos com o fim do ordenado a meio do mês e sem possibilidade de comprar comida, há quem antecipe o caos a partir dos valores da bolsa.

Olhando para o passado e para as propostas futuras do PAF (PSD/CDS), de uma coisa poderíamos ter certeza: uma continuação das políticas que já conhecemos e que nos remonta mais a um filme de terror do que algo com pelo menos algum interesse artístico, como o dito filme surrealista, seria ele: “empresas públicas a serem privatizadas ou concessionadas, produto interno bruto a cair (caiu cerca de 5% em quatro anos), cortes nas pensões, uma subserviência cega à Troika, ao Banco Central Europeu e às políticas de austeridade que têm prejudicado quem trabalha e quem pouco tem para viver no dia a dia, um sistema bancário submetido aos interesses dos privados, 485 128 emigrados de 2011 a 2014, professores e jovens que foram convidados a sair por Pedro Passos Coelho, deixando muitas mulheres com menos que fazer segundo a ótica de Paulo Portas que recentemente nos deu a conhecer aquele que acredita ser o papel das mulheres, "As mulheres sabem que têm de organizar a casa e pagar as contas a dias certos, pensar nos mais velhos e cuidar dos mais novos" (para pagar as contas é preciso dinheiro e muitos dos mais novos e menos novos, mulheres e homens, têm partido em busca de emprego), “Ineses” Teotónio Pereira a escreverem crónicas na comunicação social [O Ricardo Paes Mamede, se é ao economista que se refere, até teria algum interesse como comentador regular. Ficava-lhe bem, como jornalista que é, ser precisa nas fontes]”.

É óbvio que é a sério. O Bloco de Esquerda convidou o PS a conversar depois das eleições. A esquerda pretende chegar a consensos em prol de um interesse comum, uma vida digna para as pessoas e não defraudar a esperança de quem votou contra o atual governo. O BE “não quer [é] perder a oportunidade” de clarificar a posição da esquerda em Portugal, de contribuir para uma melhor política de governação, de fazer parte de uma solução para um país destruído em termos de emprego, salários e pensões, respeitando os princípios criados pela Constituição Portuguesa e os seus próprios princípios, divulgados com clareza durante a campanha.

A comparação clubística é também infeliz mas, abusando das metáforas desportivas, quem perdeu, em quarto lugar parlamentar, foi o CDS/PP, para já com 18 deputados atribuídos (falta apurar ciclo da emigração), não sendo reservada, à partida, a este partido sequer a medalha de bronze.

Disto tudo fica ainda uma mera curiosidade, deixando espaço aos entendidos em futebol e que melhor nos podem esclarecer: Se o jogo já foi perdido, como se joga com uma bola furada?

Sobre o/a autor(a)

Realizadora. Assessora parlamentar do Bloco de Esquerda
Comentários (3)