Está aqui

Das povoações despovoadas

Exceto Viseu, sede de concelho e distrito, que tem recebido pequena parte dos habitantes não há localidade no distrito que não tenha perdido população. Um êxodo de dimensões bíblicas levou para fora da região e sobretudo para fora do país grande número de jovens e menos jovens.

Houve tempos em que nos dias de nevoeiro ou nas noites menos iluminadas, ao ouvir de passos na calçada ou pressentindo o aproximar de alguém, o vigia perguntava:

- Quem vive?

Esta pergunta fazia todo o sentido: se algo produz movimento, então algo vive, faltando apenas saber quem, pelo que perguntar “quem vive”? equivale a perguntar a identidade do ser vivo.

Em muitas pequenas cidades, vilas e aldeias que visitámos (e não apenas as do norte do distrito), ouvir um som na rua, ver uma pessoa, é coisa rara. Às vezes tão rara que houve quem se emocionasse ao ver-nos chegar:

- Vocês foram os únicos a vir aqui! - disse-nos um atónito habitante quase agradecido por tão insólito encontro.

O panorama repete-se, um pouco por toda a parte, com mais ou menos gravidade.

Exceto Viseu, sede de concelho e distrito, que tem recebido pequena parte dos habitantes não há localidade no distrito que não tenha perdido população. Um êxodo de dimensões bíblicas levou para fora da região e sobretudo para fora do país grande número de jovens e menos jovens.

E no entanto como já sabíamos e constatámos, não poucas destas localidades estavam inseridas em lugares paradisíacos e além disso ricos em história, cultura e património: Salzedas, Ucanha, S. João de Tarouca entre estes.

A ruína é o destino certo de todo o edifício não habitado, não cuidado. Há portas que por falta de uso não voltarão a abrir. Pedras que sucumbem sob a hera, Telhas que partem e não são substituídas. Janelas empenadas para sempre.

A isto conduziram as estradas portajadas, a saída de serviços públicos, a precarização ou inexistência de trabalho, O país, dizem-nos, está melhor, as pessoas é que não. Mas sem pessoas que há senão deserto e ruinas e o impulso de gritar de novo, agora à luz do sol,diante das casas abandonadas: quem vive?

Queremos a nossa gente de volta, porque sem gente nenhum país passa de um amontoado de pedras.

Tu que ficaste, vendo outros partir, ajuda-nos a reclamar o nosso país de volta, já, neste domingo.

Sobre o/a autor(a)

Professor. Cabeça de lista do Bloco de Esquerda no círculo de Viseu, nas eleições legislativas de 2015
Comentários (2)