Da montra para o lixo: Para onde vão as nossas roupas?

porMicaela Gomes

12 de dezembro 2025 - 21:41
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O lixo têxtil é um dos principais desafios ambientais e sociais, agravado pelo ritmo da indústria da moda e pelo consumo excessivo. As limitações da reciclagem, a falta de transparência das marcas e a insuficiente capacidade de gestão mostram que a solução exige uma transformação profunda na cadeia têxtil.

O lixo têxtil constitui uma parte significante do lixo consumido mundialmente, estimando-se a produção de aproximadamente 92 toneladas de lixo têxtil anualmente. É importante que a sua gestão seja feita de forma a incentivar a economia circular, através de políticas globais e locais. “Lixo têxtil” define-se por qualquer peça de roupa ou material têxtil que é descartado, tendo chegado ao fim do seu ciclo de vida. Reciclar este lixo tem limitações técnicas, económicas e ambientais difíceis de ultrapassar, como por exemplo, o alto consumo de energia. A dificuldade na separação dos diferentes tipos de fibras, naturais e sintéticas, faz com que a reciclagem seja impossível em muitos países, deixando como única opção o aterro. Adicionalmente, a má gestão destes resíduos, particularmente dos sintéticos, torna ainda mais alarmante o problema de contaminação ambiental por plásticos.

Os desperdícios têxteis podem ser divididos em dois grupos principais: desperdício pré-consumo e desperdício pós-consumo. O primeiro diz respeito a todas as peças fabricadas com defeito, que não chegam às lojas, assim como restos de material. O segundo grupo refere-se a artigos descartados após a compra e utilização. Calcula-se que cada português descarta 19 Kg de lixo têxtil por ano.

Em 2023, a União Europeia definiu novos objetivos para a gestão de lixo têxtil, através do programa Waste Framework Directive, afirmando que todos os estados-membros deviam estabelecer um sistema de responsabilização dos produtores de têxteis e calçado. Este programa tem como principal objetivo a prevenção do consumo excessivo, passando à reutilização e reciclagem, antes das peças serem descartadas. Em Portugal, as empresas de reciclagem não têm capacidade para escoar todo o lixo têxtil descartado. Apesar de muitos municípios contratarem empresas de recolha e reciclagem têxtil, estas não conseguem acompanhar o ritmo a que as peças de fast fashion chegam aos contentores. Por outro lado, embora muitas peças sejam recicladas e transformadas em novos fios, estes acabam por não ter destino, já que a UE não estabelece a obrigatoriedade de utilização de materiais reciclados pelos produtores. Assim, as marcas de moda tendem a optar pela produção de matérias-primas novas em vez de recorrerem aos materiais que já passaram pelo processo de reciclagem.

O consumo excessivo de têxteis traz preocupações ambientais, sendo responsável pela poluição da água e dos solos, assim como pela libertação de gases tóxicos. Estima-se que industria da moda é responsável pela produção de 10% dos gases com efeito de estufa globais e 20% das águas residuais. Pelo mundo inteiro, o lixo têxtil é atirado para aterros e incinerado, libertando resíduos nocivos.

Contudo, o impacto do desperdício têxtil não é apenas ambiental, mas também social. A indústria têxtil está associada a precariedade, a baixos salários e a más condições para muitos trabalhadores. O trabalho na indústria têxtil está muitas vezes associado a turnos, com horas extra, tornando-se exaustivo. Setores como o tingimento, que recorrem ao uso de químicos tóxicos, trazem ainda perigo para a saúde dos funcionários.

Assim, torna-se cada vez mais necessário investir na reciclagem têxtil, começando pelo aumento dos pontos de recolha e pela expansão das infraestruturas de separação e tratamento. Este processo ainda enfrenta desafios significativos, como a falta de capacidade de triagem, a dificuldade em reciclar tecidos compostos por misturas de fibras e o elevado volume de resíduos gerado pela fast fashion.

A triagem e a classificação dos resíduos devem ser realizadas de forma a maximizar o aproveitamento dos materiais, privilegiando soluções fora do circuito tradicional da moda. Esses materiais podem, por exemplo, ser transformados em isolamento térmico, componentes automóveis ou outras aplicações industriais. Além disso, é fundamental reforçar a responsabilização das marcas de moda que lançam novas coleções de forma contínua, contribuindo para um ritmo de consumo e descarte que supera a capacidade atual de recolha e reciclagem.

O Fashion Transparency Index avalia o grau de clareza e detalhe com que as marcas divulgam informação aos consumidores sobre diferentes áreas das suas práticas, desde responsabilidade social a descarbonização, uso de recursos energéticos e gestão de resíduos. Em 2024, as 250 marcas analisadas registaram uma média de apenas 18% de transparência, revelando que a grande maioria continua a partilhar muito pouco sobre o impacto real da sua atividade. Esta falta de abertura significa que as escolhas do consumidor não podem depender exclusivamente da informação fornecida pelas marcas, uma vez que ela é frequentemente insuficiente ou seletiva. Ainda assim, o consumidor desempenha um papel relevante: pode prolongar a vida útil das peças através de reparação e cuidados adequados, privilegiar a reutilização, entregar têxteis em pontos de recolha apropriados e apoiar iniciativas que demonstrem verdadeiro compromisso com a sustentabilidade. Além disso, é essencial adotar um consumo mais consciente, evitando compras excessivas e valorizando a qualidade e durabilidade em vez da rotatividade rápida típica da fast fashion.

O lixo têxtil é hoje um dos principais desafios ambientais e sociais, agravado pelo ritmo da indústria da moda e pelo consumo excessivo. As limitações da reciclagem, a falta de transparência das marcas e a insuficiente capacidade de gestão mostram que a solução exige uma transformação profunda na cadeia têxtil. As marcas devem adotar práticas mais responsáveis e transparentes, enquanto os consumidores têm também um papel determinante na redução do impacto. Só com o esforço conjunto de políticas públicas, indústria e sociedade será possível diminuir os resíduos têxteis e avançar para um modelo de produção e consumo mais sustentável.

Micaela Gomes
Sobre o/a autor(a)

Micaela Gomes

Investigadora. Mestre em Engenharia Têxtil e doutoranda na Universidade do Minho. Ativista interseccional
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