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Da música como esperança

Neste país que acrescenta injustiça à desigualdade do nascimento importa defender com unhas e dentes as parcas sementes de uma violenta esperança.

O táxi subia lentamente a colina desvendando a paisagem suburbana:

- Ali naqueles bairros só moram pretos e ciganos!

O conservadorismo primário de uma parte dos taxistas daria um excelente estudo sociológico, mas eu estava ali por outras razões e, além do mais, não me parecia fundamentalmente diferente do poder instalado, mesmo se este tem mais ares de salão, requintes de retórica e adornos politicamente corretos.

A minha vingança estava à vista quando cheguei ao pequeno salão da escola para observar o “milagre” da orquestra geração, iniciativa que construiu várias orquestras em diversas escolas do país, seguindo o modelo do “Sistema de Orquestras Infantis e Juvenis da Venezuela”. Dos trinta ou quarenta elementos ali presentes, a esmagadora maioria eram crianças e jovens negros, dos bairros pobres e mal-amados e estaria destinada a um futuro de desemprego, precariedade, discriminação e estigma. Mas os destinos podem esmagar-se com a persistência de uma orquestra, esse milagre de coordenação, partilha, escuta, esforço e alegria, de onde brota a música, linguagem universal que acrescenta mundo ao mundo.

Ensaios persistentes, articulação com as comunidades locais, escolas inclusivas, professores dedicados – uma fórmula que não é mágica nem inacessível e que pode mudar a vida e quebrar de vez a ideia de que certa música é o monopólio de quem detém os bons apelidos de família, as boas maneiras ou o bom gosto, essoutro nome da intolerância.

No Porto, conheci uma outra orquestra memorável, organizada pela Casa da Música. Chama-se “Sons da Rua” e junta mediadores sociais com população sem teto. Ouvi-los construir melodias e letras, inventar instrumentos e arrancar da experiência dos seus dias tramados uma força que é um grito e uma ponte, ficará marcado em mim como um sinal do caminho a percorrer.

Neste país que acrescenta injustiça à desigualdade do nascimento, neste país de castas e privilégios zelosamente conservados, inclusive à custa da mais refinada violação das regras do que seria um jogo imparcial que premiaria o talento e a arte, importa defender com unhas e dentes as parcas sementes de uma violenta esperança.

Sobre o/a autor(a)

Sociólogo, professor universitário, Presidente da Associação Portuguesa de Sociologia. Dirigente do Bloco de Esquerda.
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