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A culpa é do Estado!

Ao longo de anos e anos seguidos, temos sido bombardeados pelos dirigentes do PS, PSD e CDS, juntamente com os comentadores encartados da televisão e jornais, a clamarem por menos Estado.

Pela segunda vez este ano, o senhor Presidente da República visitou a nossa Região.

No entanto, esta segunda visita teve contornos dolorosamente diferentes da anterior, porque ocorreu apenas alguns dias depois de uma tragédia que vitimou dezenas de concidadãos nossos, roubou o sustento de milhares de pessoas, destruiu trabalhos de uma vida e centenas de empresas. Tudo isto, com a tragédia de Pedrógão ainda bem viva no nosso pensamento.

Deixo, por isso, a análise desta visita do Presidente da República para outras crónicas.

Esta dor que percorre o país, os açorianos e açorianas sentem-na de forma particularmente presente, não pelo fogo, mas devido aos fenómenos da natureza que ciclicamente têm espalhado sofrimento e dor pelas nossas belas ilhas.

Esta tragédia tocou-me de perto, atingiu família chegada e amigos que perderam tudo: casa, emprego e projectos de vida que, num ápice, foram devorados pelas chamas. Senti na pele, na Serra do Açor, outrora plena de vida, o sentimento de perda, de dor misturada com raiva e revolta pela falta de apoio, falta de prevenção e ausência do Estado perante a tragédia.

Comunguei com todas estas pessoas, nesta serra arrasada, todos estes sentimentos, mas também a indignação que me leva a escrever estas linhas.

O Estado falhou, é a acusação que percorre o país. Para mim, nada mais certo.

Mas as perguntas têm de ser feitas:

Não foram os sucessivos governos do PS, PSD e CDS, que, de forma constante, têm vindo a retirar serviços públicos do interior, potenciando a desertificação destas regiões?

Não foram estes governos que impuseram o modelo privado de combates aos fogos, colocando a raposa a guardar o galinheiro?

Nas suas diversas modalidades, o negócio do fogo representa cerca de mil milhões de euros por ano. A privatização não constitui um irrepremível impulso?

Não foram estes governos que estimularam a florestação, sem regras, do eucalipto? Que não ordenaram a floresta? Que colocaram a floresta nas mãos da cegueira do negócio sem limites e sem regras?

Não foram estes governos que desinvestiram na prevenção de fogos, desde os vigias da floresta aos guardas florestais?

Poderia colocar muitas mais perguntas... Mas quem fez tudo isto, quem tirou o Estado da floresta, quem lançou à sua sorte as pessoas do interior do país, quem empurrou o interior para uma floresta desorganizada, na busca do pequeno ou grande lucro rápido, vem agora chorar lágrimas de crocodilo.

É de uma hipocrisia sem limites.

Ao longo de anos e anos seguidos, temos sido bombardeados pelos dirigentes do PS, PSD e CDS, juntamente com os comentadores encartados da televisão e jornais, a clamarem por menos Estado.

O Estado, nas palavras e actos destes senhores e senhoras, tem de ser mínimo, porque só atrapalha a economia, impede o desenvolvimento, desde a saúde à educação e todos os serviços têm de ser concessionados a privados, pois este é o melhor caminho para as pessoas.

Foi este o raciocínio que orientou a política sobre as florestas. Foi este o raciocínio que orientou a política de combate aos fogos.

Foi este o raciocínio que levou a que Portugal seja dos poucos países da Europa que não tem meios aéreos próprios de combate ao fogo, e que levou o país a privatizar o sistema de comunicações de emergência.

O Estado falhou. É um facto! Meus senhores e minhas senhoras que governaram este país desde longo tempo: tenham vergonha.

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda. Deputada à Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, desde outubro de 2008.
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