Cuidados e respeito para quem fez o futuro…

porDeolinda Martin

05 de junho 2023 - 23:35
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Quem vive da sua pensão ou da sua reforma sabe bem os malabarismos que a maioria absoluta do PS tem feito, para tornear o necessário aumento para que os idosos possam fazer frente também ao crescimento da inflação.

Quando nascemos começamos imediatamente a envelhecer, realidade cada vez mais difícil de ser aceite numa sociedade que vende a juventude ou a sua manutenção prolongada, como fator de discriminação positiva e de valorização: representada na estética, no vestuário, nos hábitos de cultura, de desporto… Entre nós, continuam a ser muitos e muitas os que recusam participar em grupos de trabalho que reflitam sobre propostas e caminhos que alterem esta imagem, ora fictícia, de uma juventude eterna para a realidade de uma velhice vivida que encare esta fase da vida como deve ser encarada, na plenitude dos seus direitos sociais: com direito à dignidade de tratamento e acolhimento, com a assunção de todas as alterações físicas e psicológicas naturais no processo, com adaptações nas habitações, nas respostas de proximidade, na assistência na saúde!

Somos o quarto país na União Europeia com maior percentagem de idosos, logo a seguir a países como Itália e Grécia, sendo que atualmente para cada criança com menos de 10 anos existem dois idosos, acrescentando a estes dados os números que evidenciam que, muitos deles vivem abaixo do limiar da pobreza e sozinhos. Ao aumento da esperança de vida, correspondeu o aumento do envelhecimento, sinal de progressos na sociedade nos campos económico, social, biomédico, mas que no caso português, e porque quem nos governa, não leva o país a sério, não houve tradução na assunção de políticas que introduzissem correções fundamentais e não deixassem apenas no plano das IPSS e das Misericórdias, responsabilidades que devem ser assumidas por instituições públicas, permitindo que haja também neste campo respostas universais para todos e todas, não sujeitas ao valor que auferem de pensão ou de reforma.

Quem vive da sua pensão ou da sua reforma, sabe bem os malabarismos que a maioria absoluta do PS tem feito, para tornear o necessário aumento para que os idosos possam fazer frente também ao crescimento da inflação. Tivemos um bónus de meia pensão em outubro de 2022, depois de quase duas décadas de congelamento, que foi muito inferior ao que deveríamos receber, face à Lei 53 B/2006, que permitia sermos aumentados de acordo com a inflação e porque os números de desempenho da economia eram positivos. Feitas as contas o governo de maioria absoluta do PS, não cumpriu a lei e, ainda, excluiu dos apoios dados às famílias, todas as pessoas que vivem da sua reforma ou pensão.

Em janeiro de 2023, tivemos aumentos na ordem dos 4,57%, quando os valores da inflação atingiam os 8%, com a situação a agravar-se, e a contestação social a subir de tom, perante o cada vez mais evidente desrespeito da lei, António Costa, lá abriu os cordões à bolsa, e permitiu-se conceder um aumento intercalar de 3,57% a partir de julho, mas com o truque, de só nos pagar o do subsídio de férias em conjunto com o de Natal…e sem direito a retroativos a janeiro, o que faz com que realmente, tenhamos no total um aumento inferior ao valor estimado para a inflação em 2023.

A política liberal do PS tem seguido o menu de opções políticas que seriam as de direita, e considera à saciedade, que quem trabalha só tem valor, enquanto produz e de acordo com o que produz. Uma vez reformado ou pensionista, tal como o capitalismo desenfreado, trata os mais velhos como descartáveis, já sem valor utilitário, quais instrumentos atirados para o esquecimento!

Os números terríficos da realidade vivida por esta população, na sua morbilidade, no abandono de que são vítimas, na violência de que são alvos, impõe políticas públicas de mudanças urgentes!

Para combater a extrema-direita, devemos combater a degradação a que o PS está a sujeitar o país!

Temos direito a uma vida boa!

E para acedermos a esta vida boa, que deve ser construída solidariamente e de forma intergeracional, o caminho será feito no avanço para a criação de um Serviço Nacional de Cuidados, enquanto projeto coletivo, que responderá a muitos destes anseios!

Não somos mercadoria usada e sem préstimo, recusamos o rótulo de “arrumados na prateleira”! Exigimos, o cumprimento dos nossos direitos sociais e, com a razão de quem ajudou a construir o país que somos, a consolidar a democracia, exigimos ser parte nos debates e na construção de alternativas no quadro de envelhecimento atualmente existente!

Somos uma esquerda viva! Estamos cá, prontos, porque a luta só tem sentido se a fizermos juntos!

Deolinda Martin
Sobre o/a autor(a)

Deolinda Martin

Professora aposentada. Dirigente sindical.
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