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A crise e a saúde mental

Num país onde a população apresenta uma prevalência de perturbações mentais acima da média europeia e um consumo médio de antidepressivos cinco vezes superior, é fácil perceber que um cenário de instabilidade económica reflete-se na elevação do número de cidadãos a necessitar de cuidados médicos.

Quando a atual crise financeira se instalou, vários profissionais advertiram que, à semelhança do que já se observara no passado, a diminuição dos salários e o aumento do desemprego levariam à amplificação da procura e do consumo de serviços de saúde, em particular pelo aumento da incidência de doenças mentais. Esses profissionais não se enganaram.

Um relatório recente da Organização Mundial de Saúde (OMS) sugere que a crise económica agrava os problemas a nível de saúde mental por produzir um conjunto de circunstâncias precipitantes da doença mental: falta de dinheiro, stress associado à incerteza do futuro, diminuição da qualidade de vida, desmoralização, desemprego e perda de auto-estima, entre outros.

Assim, num país onde a sua população apresenta uma prevalência de perturbações mentais acima da média europeia (1 em cada 5 cidadãos com pelo menos uma perturbação mental ao longo da vida) e um consumo médio de antidepressivos cinco vezes superior, é fácil perceber que um cenário de instabilidade económica reflete-se na elevação do número de cidadãos a necessitar de cuidados médicos, nos quais se incluem os necessários às doenças físicas relacionadas com estilos de vida pouco saudáveis (sedentarismo, tabagismo, abuso de álcool, etc), também eles associados às consequências da crise. Esta elevação acarreta um acréscimo nos custos diretos, pelo aumento do número de consultas, dias de internamento e consumo de fármacos (se bem que muitos doentes não tomam a medicação prescrita porque não têm dinheiro para a comprar) e indiretos, pelo absentismo, menor produtividade e redução na contribuição fiscal.

Se, por um lado, a crise leva ao aumento do consumo de serviços de saúde, por outro, ela afeta o orçamento disponível para o funcionamento eficaz desses mesmos serviços. O problema não fica por aqui.

Uma investigação realizada entre 1970 e 2007 envolvendo 26 países europeus, concluiu que a cada aumento em 1% da taxa de desemprego correspondeu um aumento em 0,8% de suicídios na população com idade inferior a 65 anos (ou a 4,5 % quando da taxa de desemprego apresentava um aumento superior a 3%), números essencialmente explicados pelo crescimento do número doentes mentais. E de facto, de acordo com os números do INE, em 2010 as mortes por suicídio em Portugal ultrapassaram pela primeira vez os óbitos provocados por acidentes rodoviários.

A quem se debruça sobre os números e estatísticas financeiras, é legítimo exigir que se debrucem com urgência sobre as pessoas, sobre a perda significativa de qualidade de vida e, em último caso, da própria vida.

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