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Criar raízes
Reduzir as vitórias apenas a um determinado facto costuma ser uma simplificação redutora, que muito pouco traz a qualquer tentativa de reflexão. Por outro lado, reduzir as derrotas a apenas um aspecto será, porventura, uma fuga maior a qualquer aprofundamento.
Os resultados eleitorais do Bloco de Esquerda nestas legislativas não foram os desejados. O Bloco viu quebrado o crescimento até agora conhecido, o grupo parlamentar reduzido e a fuga de um quinhão importante de votos. Este resultado foi uma derrota mas, como referido logo na noite eleitoral, saímos derrotados, mas não vencidos. Os motivos para estes resultados eleitorais são vários. Não tenho a intenção de ser exaustivo nesta análise, mas sobretudo realçar alguns aspectos políticos que terão sido factores maiores neste panorama.
Parece claro que em 2009 o Bloco beneficiou de votos motivados pelo afastamento entre Manuel Alegre e um PS mergulhado numa maioria absoluta autocrática. Este afastamento de Manuel Alegre em relação à política do Código de Trabalho de Vieira da Silva e às privatizações de Sócrates, bem como o seu diálogo com o Bloco de Esquerda, deram mais força ao principal argumento da campanha de então: o voto no BE é o mais certeiro para retirar a maioria absoluta a José Sócrates. Com a direita esvaziada e uma Ferreira Leite que criava anticorpos mesmo entre as suas hostes, a mensagem do BE passou e deu frutos. Não havia voto útil a que José Sócrates pudesse apelar, porque a direita não representava qualquer ameaça eleitoral. Este cenário político sofreu profundas alterações.
A reaproximação entre Manuel Alegre e José Sócrates, particularmente no debate sobre as medidas da troika que vão condicionar os próximos anos, reforçou a pressão para o regresso de muitos desses eleitores ao voto no PS. Este processo foi agudizado pelo reforço da direita, com um discurso mais extremado, o que deu ainda mais espaço para o discurso do voto útil. Este terá sido um factor importante para o recuo na votação no BE.
A votação entre os jovens já tinha sido afectada em 2009, com alguma perda de eleitorado. Nas eleições recentes, apesar de não se percepcionar perda de votação jovem para a direita, a verdade é que a influência do BE entre os jovens diminuiu, sobretudo perdendo para a abstenção. Este será o segundo pilar na quebra de votação e igualmente merecedor de atenção redobrada para o futuro próximo.
As razões apresentadas não pretendem esgotar esta análise. Contudo, dão a tónica sobre os principais motivos, apontando algumas perspectivas para o futuro próximo. O contexto político exigirá do BE que se supere em defesa das pessoas, do trabalho com direitos, dos salários, das pensões e dos direitos. Com o PS umbilicalmente ligado às medidas da troika, os socialistas procurarão alternativas e o Bloco será esse rosto, tanto mais que o debate sobre a necessidade da auditoria à dívida e da sua renegociação para proteger salários e pensões será o nosso dia a dia a partir de agora.

Comentários
Estou mto zangado com o bloco
Estou mto zangado com o bloco desde o apoio ao Alegre. Têm-se sucedidos titubianços e azelhices - como a ideia interessante mas ainda peregrina no contexto portugues de uma esquerda plurimodal em aliança com o PC por exemplo. Na verdade o bloco tem de criar a partir de dentro as condicoes para se assumir como uma alternativa de governo. Tem a capacidade de o fazer, estou seguro. Muita gente espera isso. Tem de deixar de vez de ser o partido da luta contra as propinas - como ainda é visto pela maioria, correndo o risco de se ir inumando aos poucos nao querendo crescer nao querendo ser um partido adulto.
Parece que vai sendo tempo de
Parece que vai sendo tempo de combater a ideia simplista que reduz a explicação deste falhanço do Bloco à "moção de censura" e ao apoio ao Manuel Alegre. No primeiro caso, a forma como foi apresentada a moção, tipo coelho a sair da cartola, deu azo a um dos ataques mais ferozes a que já assisti contra uma organização de esquerda protagonizado pela direita toda, PS incluído, e com colaboracionistas internos à mistura.Com a forma, escondeu-se o conteúdo. Aquilo que foi considerado uma enorme infantilidade e irresponsabilidade, deixou de o ser menos de 15 dias depois, no dia em que, com o chumbo do PEC o Governo resolveu cair. Terá havido alguma imaturidade na forma, não no conteúdo. E, num ambiente profundamente hostil, há que reconhecer que isto pode ter feito mossa.Mas há que relativizar, não estará aí a origem de todos os males.
Parece que vai sendo tempo de
Parece que vai sendo tempo de combater a ideia simplista que reduz a explicação deste falhanço do Bloco à "moção de censura" e ao apoio ao Manuel Alegre. No primeiro caso, a forma como foi apresentada a moção, tipo coelho a sair da cartola, deu azo a um dos ataques mais ferozes a que já assisti contra uma organização de esquerda protagonizado pela direita toda, PS incluído, e com colaboracionistas internos à mistura.Com a forma, escondeu-se o conteúdo. Aquilo que foi considerado uma enorme infantilidade e irresponsabilidade, deixou de o ser menos de 15 dias depois, no dia em que, com o chumbo do PEC o Governo resolveu cair. Terá havido alguma imaturidade na forma, não no conteúdo. E, num ambiente profundamente hostil, há que reconhecer que isto pode ter feito mossa.Mas há que relativizar, não estará aí a origem de todos os males.
Também no que se refere ao
Também no que se refere ao apoio ao Manuel Alegre, pareceu-me uma tentativa honesta de procurar consensos em torno de valores mínimos comuns possíveis - defesa da escola pública, da segurança social, contra o pacote laboral. Numa eleição presidencial fazia todo o sentido. A alternativa é o espírito de seita, antes sós que mal acompanhados, para não dizer "orgulhosamente sós", como alguns praticam à esquerda, com resultados menos maus, há que reconhecê-lo. Mas sem esperança no futuro, há também que dizê-lo. O apoio a Alegre, nas circunstâncias em que aconteceu, não legitima qualquer ideia de confusão ou colaboracionismo entre o Bloco e o PS de Sócrates. Aliás, foi demasiado evidente que o "povo socialista" emigrou para vários candidatos, só residualmente votou M. Alegre. E isto é que deve ser um problema sério, difícil de resolver, mas essencial, como chegar a este povo que nem a este programa mínimo foi sensível e está sempre disposto a embarcar com os Sócrates e os Passos desta vida.
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