Cooperativismo: o futuro que já está aqui

porLuís Henrique Santos

14 de maio 2026 - 21:47
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É preciso debater novas formas de afirmar a ideia original do cooperativismo. Um projeto político e económico amplo, apartidário mas não despolitizado, intrinsecamente ligado à luta de quem vive do seu trabalho por mais justiça social  e democracia económica.

O Festival Coopera - Futuros em Rede, organizado pela cooperativa Rizoma, acontece este fim de semana nos Jardins do Miguel Bombarda, em Lisboa. Serão três dias dedicados ao cooperativismo, com espaço para convívio, feira de artesanato, gastronomia e atrações musicais. A entrada é livre e aberta a todos.

Perguntarão os mais céticos: cooperativismo, hoje em dia? Só podem estar a brincar. Os tempos mudaram, pá, as cooperativas são uma coisa do passado! Logo a seguir, haverá quem aponte o excesso de burocracia ou acuse o modelo de ineficiência por falta de gestão profissional. Outros, mais convictos das suas posições, argumentarão: casa sem dono, cada um faz o que quer! Democracia nas organizações são a receita para o caos.

Estas questões - todas muito pertinentes - não têm resposta imediata. O meu objetivo não é desmentir ou suavizar críticas que, muitas vezes, assentem em experiências reais. Outras nem tanto. Começo antes por sinalizar o mais importante: não tenhamos ilusões. É verdade. Não existem balas de prata. As cooperativas não são a solução milagrosa para todos os nossos males económicos e sociais. Ao longo de décadas, a inventividade e capacidade dos melhores cooperativistas nem sempre garantiu a longevidade das suas organizações. Muitas cooperativas ficaram pelo caminho, outras continuaram até aos dias de hoje. A génese do movimento cooperativo em Portugal, embora frágil e pouco unitária, integra uma grande diversidade de realidades. Essas experiências podem - e devem - continuar a transformar o presente e a imaginar o futuro. As cooperativas são laboratórios de resistência e de ação concreta com visões alternativas de trabalho e vida digna.   

Isto é tudo muito bonito, mas superar o sistema capitalista, a divisão social do trabalho e a lógica de acumulação não é tarefa fácil. A solidariedade pode até ser um elemento estrutural do ser humano e da vida em sociedade, mas é preciso mais do que boas intenções para vergar a besta.

Temos à nossa frente o progressivo enfraquecimento dos mecanismos de redistribuição, com o desinvestimento nos serviços públicos, o aumento da precariedade laboral e a redução dos impostos para os mais ricos. Esta realidade piora a vida das pessoas e mina a capacidade de mudança, abrindo espaço ao ressentimento e ao crescimento da extrema-direita e ao autoritarismo que ameaça a nossa democracia. Não está fácil.

Por outro lado, nas últimas décadas, cristalizou-se o discurso cooperativista em certos círculos associativos, dominado por um olhar despolitizado e falsamente neutro do ponto de vista ideológico. A cooperativa é entendida como uma mera “empresa de cariz social”. Os seus dirigentes são “empreendedores” preocupados com avaliações de impacto social. Encurtou-se, assim, a distância face à ideologia dominante focada no mercado e na maximização do lucro. Isto redundou na perda de identidade e na diminuição do papel social e político das cooperativas, desmobilizando os cooperadores. Seria um enorme favor que se fazia às forças autoritárias prosseguir este caminho.

Há, no entanto, muita gente a procurar fazer diferente e nada está perdido. É preciso que os bons exemplos sejam estudados e divulgados, para continuar a haver esperança nas soluções coletivas. Afinal, como defende Rui Namorado1, o cooperativismo não é apenas um modelo empresarial alternativo ou uma estrutura jurídica, é – ou deve ser - a expressão concreta do poder dos trabalhadores organizados de forma democrática.

É, por isso, preciso também debater novas formas de afirmar a ideia original do cooperativismo. Um projeto político e económico amplo, apartidário mas não despolitizado, intrinsecamente ligado à luta de quem vive do seu trabalho por mais justiça social  e democracia económica. Fomentar este debate e tantos outros são formas de construir em conjunto o futuro que já está aqui. Anda daí.


Nota:

1 Rui Namorado (1945-2025) foi escritor, ensaísta, professor e político. Faleceu em janeiro de 2025, deixando um importante contributo para o desenvolvimento do direito económico e para os estudos cooperativos em Portugal.

Luís Henrique Santos
Sobre o/a autor(a)

Luís Henrique Santos

Trabalhador no sector segurador. Membro da concelhia de Vila Franca de Xira do Bloco de Esquerda.
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