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Contra as “provas” românticas de José Rodrigues dos Santos

Vender livros e atacar as esquerdas são dois objetivos nos quais JRS está tão empenhado que, pelo caminho, tem como vítimas principais o jornalismo, a inteligência e a própria cultura democrática.

José Rodrigues dos Santos lançou um argumento de peso (!)1para a discussão pública: “se acham que o fascismo não tem origens marxistas, façam o favor de desmentir as provas que apresento nos meus romances”.

Vender livros e atacar as esquerdas são dois objetivos nos quais JRS está tão empenhado que, pelo caminho, tem como vítimas principais o jornalismo, a inteligência e a própria cultura democrática2. Se os seus livros podem entreter algumas pessoas, as ideias que espalha precisam de contraditório.

JRS quer fazer gémeos movimentos políticos opostos e para isso usa percursos biográficos de intelectuais e políticos. O mesmo argumentário serviria, em Portugal, para dizer que a ideologia de parte da direita portuguesa tinha origem no “Pensamento de Mao Tsé Tung” – não falo apenas de Durão Barroso. Interessa portanto lançar antes pistas sobre o fenómeno social e político.

Numa coletânea acerca das Ideologias e Movimentos Políticos Contemporâneos, o historiador Joan Antón afirma, no capítulo sobre fascismo3, que “Mussolini foi o líder carismático que conseguiu aglutinar em torno da sua figura ultraconservadores, ultranacionalistas, sindicalistas revolucionários e socialistas não-marxistas, assim como todo o tipo de descontentes, ressentidos e marginalizados da Itália surgida da Primeira Guerra Mundial”.

Os meios de propaganda e mobilização popular usados pelos movimentos fascistas apelam, de facto, também às classes trabalhadoras, mas não numa perspetiva internacionalista – como o marxismo. O marxismo combate a xenofobia e, mais tarde, o imperialismo e a guerra como prejudiciais aos interesses das classes trabalhadoras. O fascismo explora os sentimentos mais negativos para afirmar o poder do Estado corporativo, no qual os antagonismos de classes são domesticados/disciplinados a favor da manutenção do poder económico do grande capital.

A sensibilidade para a questão nacional, ao nível do marxismo, não é uma novidade do século XX como JRS quer fazer crer e muito menos na vertente que apresenta. Por exemplo, entre 1867 e 1870, Marx escreveu um conjunto de cartas acerca da Irlanda. Já nessa época, Marx alertava a Associação Internacional dos Trabalhadores para a necessidade da defesa da independência da Irlanda. O domínio colonial inglês unificava e fortalecia os interesses da aristocracia e da burguesia inglesas e enfraquecia, dividia e colocava em conflito trabalhadores ingleses e trabalhadores irlandeses4.

“E, já agora, aproveitem também para desmentir que o fascismo alemão se designava nacional-socialismo” foi o argumento final de JRS. O anacronismo é um dos ingredientes mágicos deste delírio. Se hoje os defensores do socialismo são geralmente considerados marxistas ou de origem marxista, tal não acontecia no final do século XIX e no início do século XX. Não por acaso, no Manifesto do Partido Comunista de 1848, Marx e Engels caracterizam sistematicamente a existência de vários tipos de socialismo, sendo um dos tipos: o “socialismo reacionário”5.

Os nazis a quem JRS chama, e bem, fascistas alemães metiam no mesmo saco os comunistas e os banqueiros como parte da mesma “conspiração judaica” que unia movimentos dos trabalhadores e plutocratas. Num tempo em que a Europa vê reemergir movimentos de extrema-direita, JRS reedita teses conspiratórias que pretendem ligar fascismo e marxismo e só servem para enfraquecer a democracia.

Para fazer a história das ideologias e movimentos políticos haverá muitos livros para ler, mas nenhum deles da autoria de José Rodrigues dos Santos.


Notas:

3Antón, J. – “Fascismo” in Antón (ed.), Joan. Ideologías y movimientos políticos contemporâneos. Madrid: Tecnos, 2012. pp. 213-234.

4Marx, Karl – “Letters on Ireland, Marx to Engels, 10 december 1869” in Karl Marx. The First International and After. Political Writings Volume 3. London: Verso, 2010. pp. 166-167.

5Marx, Karl e Engels, Fredrich – Manifesto do Partido Comunista . 4ª Ed. Lisboa: Edições Avante, 2004.

Sobre o/a autor(a)

Investigador. Mestre em Relações Internacionais. Dirigente do Bloco de Esquerda.
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