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Consequências em Zaporijjia da destruição da Barragem Kakhovka

Se se multiplicarem os atos de guerra nas imediações da Central Nuclear de Zaporijjia caminharemos para um acidente com consequências imprevisíveis para a Ucrânia e para a Europa.

A destruição da Barragem Nova Kakhovka, situada a jusante da Central Nuclear de Zaporijjia, na Ucrânia, provocou uma descida abrupta do nível da água junto à maior central nuclear da Europa aumentando consideravelmente o risco de ocorrer um grave acidente.

Apesar de cinco dos seis reatores terem sido desligados é fundamental arrefecer em contínuo o combustível nuclear que se encontra a altas temperaturas e cujo processo de arrefecimento pode durar décadas. O único reator da Central de Zaporijjia em operação encontra-se em regime de baixa potência. O volume de água necessário para arrefecer estes seis reatores e as piscinas onde de combustível utilizado é de cerca de 1000 m3 de água por hora. Quando os seis reatores estão em operação são necessários milhares de metros cúbicos de água por segundo.

Esquema do circuito de água de um reator nuclear a água pressurizada (US Department of Energy).

Um dos sete pilares de segurança das centrais nucleares, definidos pela Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), requer que todos os sistemas que garantem o funcionamento em segurança de uma central deverão estar permanentemente em operação. Depois da destruição da barragem de Kakhovka este pilar está em risco, dado que o circuito de arrefecimento poderá perder o abastecimento contínuo de água. O nível da água do lago junto à central de Zaporijjia era regulado pela Barragem de Nova Kakhovka. Em condições normais a profundidade situa-se entre os 16 e os 17 metros. Depois da destruição da barragem, o nível da água junto à central começou a descer a um ritmo de 5 cm/hora e no final desse dia o ritmo era já de 10 cm/hora, quando a cota do nível da água se encontrava a 15,44 metros. Quando a cota do lago descer abaixo dos 12,70 metros, as bocas do circuito de arrefecimento vão ficar a descoberto e vão deixar de poder captar água para arrefecer a central. A acontecer, será a primeira vez na história que uma central nuclear perde a sua fonte de água fria. No entanto, a central está equipada com alguns reservatórios de água auxiliares que no estado atual de funcionamento da central são suficientes para arrefecer o combustível durante meses, isto na condição de não serem ainda danificados ou destruídos. Curiosamente, durante os últimos meses, observadores externos da AIEA registaram que os operadores russos da Barragem Nova Kakhovka fizeram baixar intencionalmente a cota da água do lago até à cota das bocas de captação de água de Zaporijjia, perto dos 12,70 metros, tendo subido nos últimos dias a cota até ao seu nível máximo.

A falta de água para arrefecer os reatores pode causar um acidente muito grave, desencadeando a fusão dos reatores e incêndios nas piscinas de arrefecimento de combustível. Combinados, estes dois efeitos, irão ejetar partículas e gases altamente radioativos para a atmosfera. A extensão da precipitação destas nuvens radioativas depende das condições meteorológicas, podendo estender-se a mais de 1000 quilómetros de distância, obrigando à evacuação de vastas áreas habitadas.

Apesar de a AEIA estar a seguir de perto a situação e a colaborar ativamente com os engenheiros da Central Nuclear de Zaporijjia, a probabilidade de ocorrer um acidente muito grave está a aumentar consideravelmente e se se multiplicarem os atos de guerra nas imediações da central caminharemos para um acidente quase certo com consequências imprevisíveis para a Ucrânia e para a Europa.

Sobre o/a autor(a)

Investigador no Departamento de Física da Universidade de Coimbra
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