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Como vencer o pessimismo de uma geração?

Só podemos romper o muro do pessimismo com novas utopias concretas.

O ano de 1986 foi marcado pela adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia. De alguma forma, a austeridade das intervenções do FMI (1978 e 1983) estava ultrapassada. Vivia-se bem? A esta pergunta responde-se com outra: quem?

Entre aquelas que iniciaram a escola nos anos 1990, havia muitas crianças que conheciam na prática as limitações da "gratuitidade" do ensino e do acesso à saúde, por exemplo. Algumas e alguns de nós crescemos sabendo que tínhamos menos acesso aos bens que a sociedade produzia. Chame-lhe pobreza quem quiser ficar com um conceito superficial da realidade. Apesar de tudo isso, havia um otimismo.

Mesmo quem estava consciente de viver uma situação desigual e injusta nesta sociedade: olhava para o futuro com otimismo. Sentia-se progresso em infraestruturas, por exemplo. E algumas pessoas da camada baixa da classe trabalhadora acediam a algumas melhorias de salário ou de acesso a bens. Não era isso a realidade toda, mas o clima era de progresso. Nos livros da escola via-se uma União Europeia em alargamento. Alguns de nós, uma minoria, até pudemos ser os primeiros das respetivas famílias a tirar um curso superior. O futuro seria melhor.

Nesse meio, no ensino superior, também não era nada fácil para essa minoria que o alcançou. Pesavam as propinas, as bolsas tardavam e às vezes não eram suficientes. Todos os tempos foram complicados para uma parte da sociedade, para a maioria. Mas o revés no otimismo sentiu-se forte com a crise iniciada em 2007/2008.

Já antes falava-se numa crise portuguesa. Mas a crise internacional tornou esta palavra definitiva para uma geração. Seja para quem nasceu em 1986 e viu a esperança afundar, seja para quem nasceu em 2000 e cresceu com o eco: crise, crise, crise. O pessimismo marca a segunda metade dos últimos 30 anos.

Vivemos hoje numa sociedade marcada pelo pessimismo. "Tu já não vais ter reforma". "A segurança social é insustentável". "Contrato de trabalho, isso era dantes". E depois destas sentenças vêm as falsas origens do problema: desde o "vivemos acima das nossas possibilidades" (mas quem?) até ao vago "mundo mudou" (como? e porquê?).

A pergunta que se impõe é: como vencer o pessimismo de uma geração? Afinal é a sociedade do pessimismo real, marcado na dureza da vida, é essa sociedade que faz germinar a xenofobia e todos os ódios. Não haverá outro caminho?

Primeiro precisamos de saber por onde não vamos. Os vendedores de banha da cobra divulgam esperanças vãs: "o que é preciso é acreditar", "basta a vontade!" (sem olhar às circunstâncias). Falam em "pensar fora da caixa" mas não desencaixam das ilusões do determinismo do mundo em que vivemos, apenas descarrilam sem para-quedas ou pelo menos empurram os outros para uma queda livre. Do que falo? Propagandistas do empreendedorismo e misticismos vários.

Em segundo lugar, é preciso ter consciência da sociedade em que vivemos. A sociedade atual produz mais com menos recursos. O desenvolvimento tecnológico exige menos trabalho. Há mais gente qualificada e mais capacidade para qualificar mais gente. Por que razão será isso uma tragédia? Precisamos de um olhar crítico, atento, sobre a sociedade. É preciso identificar quem explora e quem é explorada ou explorado. É preciso combater balelas acerca do interesse nacional e de outros conceitos vagos - vejam a falsa polémica da 'espanholização' da banca1.

Por último e como pista para o futuro: a maioria das pessoas deste país precisa de trabalhar para viver e é o seu trabalho que faz a sociedade funcionar. Um povo, no sentido de uma política progressista, são os 99% da sociedade, nunca são os 100%. Precisamos saber de que lado estamos, que interesses e convicções nós defendemos: nós os 99%. Só podemos romper o muro do pessimismo com novas utopias concretas. O que é isso? As gerações mais jovens, principalmente as gerações mais jovens, têm de discutir que sociedade é que querem. Isto não vai lá com remendos.


1 Sugiro a leitura do artigo de Moisés Ferreira “Sobre a ‘espanholização’ da banca”, uma análise necessária desta falsa polémica.

Sobre o/a autor(a)

Investigador. Mestre em Relações Internacionais. Dirigente do Bloco de Esquerda.
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