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Colossal

O adjectivo ganha propriedade, mas... para ilustrar o brutal corte no rendimento dos trabalhadores portugueses e a gigantesca redistribuição de rendimentos a favor dos mais ricos.

Pois é, estamos num tempo de enormidades. Passos Coelho disse à porta fechada algo que alguns conselheiros nacionais do PSD vieram publicamente interpretar que ele considerara que as contas públicas tinham um desvio colossal. Porém, uma tal afirmação, se confirmada, desdiria as promessas anteriores do líder do PSD e, pior que isso, alertava os “mercados” e a troika que a situação das contas públicas era ainda pior, dando base a novos ratings lixo e a reforçadas pressões de todo o género. O ministro de Finanças de plantão reinterpretou e, com aval reforçado de Cavaco, o desvio colossal tornou-se trabalho governamental gigantesco. Uma crítica a outrem passava a auto-elogio e a dúvida ficava: dois em um, através de um jeito de pequena manobra.

Não é por acaso que o governo teve necessidade de adjectivar fortemente, assim procura criar a ideia que a realidade é uma enormidade, de que todos padecemos e para cujo tratamento todos teremos de sofrer.

Entretanto, o governo anunciou o corte drástico do 13º mês. Mas esta redução no rendimento da maioria das pessoas não atingirá depósitos bancários, nem dividendos, nem lucros, nem a maioria das mais-valias, que em cerca de 70% são recebidas por não residentes e por pessoas colectivas. O enorme corte nos rendimentos não é para todos, os mais ricos, as empresas e os bancos são poupados.

Depois do corte no subsídio de Natal, o governo divulgou aumentos dos transportes colectivos em mais de 15%, de novo é a maioria da população a pagar, enquanto o governo já prepara a redução das contribuições patronais para a segurança social. Novamente, mais ricos, empresas e bancos ganharão e quem trabalha será prejudicado.

E não ficam por aqui as novidades governamentais. Um ilustrativo exemplo está na nomeação da nova administração da Caixa Geral de Depósitos (CGD), com destaque para a ida de Nogueira Leite para vice-presidente do banco público. Provindo do grupo Mello, o novo vice-presidente da CGD é conselheiro nacional do PSD e conselheiro do seu líder Passos Coelho. Em 2010, o destacado economista do PSD era membro de, nem mais nem menos, 17 administrações de empresas, bancos e institutos. A administração da CGD é um job luxuoso para destacados boys do PSD e do CDS.

Colossal! O adjectivo ganha propriedade, mas... para ilustrar o brutal corte no rendimento dos trabalhadores portugueses e a gigantesca redistribuição de rendimentos a favor dos mais ricos e, prenuncia-se, dos amigos do governo. Para combater esta enormidade todos teremos de nos preparar para dignas mobilizações sociais.

Sobre o/a autor(a)

Editor do esquerda.net Ativista do Bloco de Esquerda.
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