Depois penso melhor, algo que nem sempre sucede, e lembro-me de conversas sobre o facto dos jovens nos países nórdicos serem "despachados" pela família mal chega a idade da Universidade. Vão para residências, partilham os quartos e recebem dinheiro para estudar. É assim que saem pela segunda vez da barriga da mãe. Recordo-me também dos meus tempos de jovem. Saía-se bem mais cedo de casa ou porque se começava a trabalhar antes da idade de trabalhar ou porque os mais amparados podiam experimentar o que a vida tinha para dar. Muitas vezes, a família não gostava porque nunca se sabe onde pára a viagem, mas não tinha como a impedir. Acabava por ficar para o que desse e viesse, como almofada da ousadia.
Uns bons anos mais tarde, numa das primeiras campanhas eleitorais do Bloco de Esquerda, andei de escola em escola em pequenas sessões, armado com uma pergunta de repetição provocatória: querem mesmo ser adolescentes até aos 30? Nessa altura não conhecia as estatísticas italianas, que aliás não deviam ser muito diferentes das nossas. Só tinha percebido que o que estava a mudar, mais do que os pais ou os filhos, era o emprego.
A crónica do Fígaro acrescentava histórias bizarras para apimentar os números. Escolho uma: em Bergamo, uma jovem de 32 anos (como eu gostaria de ter sido tratado assim com essa idade) levou o pai a tribunal por este lhe ter deixado de pagar os estudos de Filosofia. Consigo imaginá-lo, desesperado, explicando ao juiz que a filha mal agradecida deixara de estudar ia para oito anos e que não percebia porque lhe havia de pagar agora a Universidade. A crónica não dava conta da sentença, nem a creio relevante. Apenas me interessa a sua reacção: imagino-a do lado do pai se conservar a íntima convicção de que a melhor herança que podemos deixar aos filhos é a da conquista da liberdade. O problema é que sem emprego não há casamento e sem este não se sai de casa. Pior ainda, dizem-nos que no futuro o emprego será uma "ocupação" alternada com formação ao longo da vida. Se assim for e se o Estado continuar a desertar em face do mercado, então a "jovem" de Bergamo tem mais razão do que se poderia supor - ela apenas trouxe para o presente o tempo que aí vem.