A temperatura média do planeta tem vindo a aumentar, e os últimos anos têm sido consistentemente marcados por temperaturas recorde. Em paralelo, também se tem verificado um aumento da atenção dada à relação entre crises ambientais, conflitos armados e violência em massa. Poderemos, então, afirmar que estes fenómenos estão relacionados? O consenso na comunidade científica indica que, apesar de evoluírem lado a lado, as catástrofes climáticas, por si só, não são causa direta de conflitos armados. Ainda assim, as alterações climáticas devem ser entendidas como um multiplicador de risco, e não como uma causa direta e isolada de guerra. Na prática, os seus efeitos tornam-se mais perigosos quando se cruzam com desigualdades estruturais, fragilidade institucional, ocupação militar, pobreza e falta de acesso a recursos essenciais. Assim, o clima não explica sozinho a violência, mas pode agravar condições já favoráveis ao conflito.
Por outro lado, as consequências de catástrofes naturais podem funcionar como gatilho para o surgimento de conflitos. A escassez de recursos, a perda de meios de subsistência, o deslocamento de populações, os choques de preços e a pressão sobre a capacidade do Estado são alguns dos fatores que agravam riscos já existentes. Quando estes se combinam com sociedades marcadas por desigualdades profundas, governos ineficientes e ambientes de tensão e violência, a probabilidade de eclosão de um conflito aumenta.
Para compreender melhor esta dinâmica, vale a pena olhar para diferentes contextos geopolíticos. Por exemplo, a ocupação da Palestina por Israel tem provocado danos muito graves nos solos, bem como nas fontes de água. Estima-se que os palestinianos tenham acesso a apenas 17% dos recursos hídricos, enquanto Israel consome os restantes 83%. Paralelamente, extensas áreas agrícolas são ocupadas e utilizadas por israelitas, deixando muitas famílias palestinianas sem espaço para cultivar alimentos. Além disso, as operações militares conduzidas por Israel têm contribuído para a desertificação e degradação dos terrenos, reduzindo a biodiversidade e a produtividade agrícola. A estes fatores juntam-se os desafios climáticos que se intensificam na região da Palestina, nomeadamente o aumento acentuado das temperaturas e períodos prolongados de seca. O agravamento da variabilidade da precipitação, aliado à maior presença de água salobra nos poços artesianos no Vale do Jordão e em Gaza, bem como à intrusão de água salgada, compromete os aquíferos e a qualidade das águas subterrâneas em Gaza. Perante recursos tão limitados e num contexto de ocupação, torna-se extremamente difícil implementar estratégias eficazes de adaptação climática.
Num contexto distinto, como o do Irão, observa-se igualmente a interligação entre ações militares e degradação ambiental. Em apenas duas semanas de ataques, terá sido gerada mais poluição do que aquela que muitos países produzem num ano. A destruição de infraestruturas petrolíferas iranianas tem contaminado o solo e a água, ao mesmo tempo que polui o ar. Estima-se que destes ataques já tenham resultado emissões superiores a 5 milhões de toneladas de CO₂ (o equivalente a manter cerca de um milhão de carros a circular durante um ano). À semelhança da Palestina, o Irão atravessou secas severas nos últimos 5 anos, com temperaturas que podem exceder os 50°C. Enquanto a Palestina ilustra os efeitos da ocupação sobre os recursos naturais, o Irão evidencia como os choques militares e ambientais se podem reforçar mutuamente.
No Sudão, as cheias devastaram os meios de subsistência e dificultaram a mobilidade das famílias que enfrentam uma guerra civil. Os choques climáticos têm comprometido a segurança alimentar, enquanto intensificam também a competição por recursos que já são escassos. Este conjunto de aspetos leva muitas vezes ao aumento da tensão e dos conflitos entre a população. O impacto acumulado das cheias recorrentes tem levado ao deslocamento de civis e de comunidades inteiras em algumas das regiões mais afetadas por inundações e conflitos, tornando-as progressivamente mais vulneráveis. Por exemplo, o estado de Unity, uma região propensa a inundações no norte, enfrenta episódios persistentes desde 2020, o que tem resultado em deslocações populacionais. Estradas intransitáveis dificultam a entrega de alimentos e de ajuda essencial, obrigando as organizações humanitárias a recorrer a métodos alternativos. As cheias persistentes evidenciam como fenómenos meteorológicos extremos e recorrentes estão a transformar comunidades e paisagens, ameaçando a população a longo prazo.
Estes três casos não são isolados; pelo contrário, inserem-se num padrão mais amplo de vulnerabilidade climática em contextos de violência. Podem nomear-se outros exemplos de populações vulneráveis a alterações climáticas que vieram a sofrer consequências severas durante invasões e ataques. Contudo, a relação entre os dois problemas é cada vez mais sentida. As consequências das futuras alterações climáticas serão, provavelmente, diferentes das perturbações climáticas históricas, uma vez que as sociedades terão de lidar com condições sem precedentes, que ultrapassam a experiência conhecida e aquilo a que poderão ser capazes de se adaptar.
Os conflitos armados consomem uma enorme quantidade de recursos, desde maquinaria e armamento até aos incêndios que provocam. Em contextos de guerra, verifica-se ainda a tendência de os governos desviarem fundos destinados a iniciativas climáticas para despesas militares. A cada estação agrava-se a crise e crescem as preocupações de que algumas comunidades possam nunca recuperar as suas terras, à medida que o deslocamento induzido pelo clima evolui para uma crise em larga escala, potencialmente permanente. Em suma, as alterações climáticas não produzem, por si só, guerras ou genocídios, mas intensificam vulnerabilidades e podem acelerar crises em contextos já instáveis. A sua influência sente-se sobretudo quando há escassez de recursos, deslocamento forçado, degradação ambiental e incapacidade do Estado para proteger a população. Por isso, pensar clima e conflito em conjunto é essencial para prevenir futuras tragédias e para construir respostas políticas e humanitárias mais eficazes.