Chove intensamente… estamos a viver um outono como há muitos anos não tínhamos, a cidade atulha-se de automóveis, deslocamo-nos num pára arranca interminável, as paragens de autocarro estão cheias de pessoas que procuram acolher-se da água que cai, encolhendo-se num espaço diminuto, onde mesmo que consigam o seu bocadinho, parte de si ficará completamente molhado porque estas não foram pensadas para esse fim… Não protegem do sol, mas também não protegem da chuva! Quem pensa as cidades, se é que há alguém que as reflete e planeia, não tem como centro dessa reflexão, a vivência que todos nós iremos fazer delas, tem sim como eixos centrais: a mobilidade, as zonas comerciais e industriais, algumas vezes enquadram zonas de cultura, zonas de saúde… as pessoas serão a animação de tudo isto, terão, pois, que se encaixar no plano estabelecido.
Mas, porque digo eu, que as pessoas não estão no centro das decisões quando todas estas zonas existem para servir as pessoas? Porque se olharmos para os vários equipamentos distribuídos por toda a cidade, não houve até recentemente, um olhar atento para a forma como eles iriam ser utilizados, senão as paragens de autocarro, a título de exemplo, seriam diferentes, seriam pensadas para proteger do calor e do sol tal como para protegerem da chuva e do frio. Construíram-se urbanizações em que as garagens foram substituídas por apartamentos, deixando o estacionamento para a rua, o que representa em alguns bairros, um verdadeiro inferno diário para quem quiser deixar a viatura respeitando as regras de trânsito. Este quadro é tanto mais grave se a ele adicionarmos mobilidade reduzida a quem tem deficiência, sofre de alguma patologia clínica, ou ainda, se é idoso, constituindo um obstáculo à livre circulação de quem se encontra com limitações para o fazer.
Estacionado o carro, entro no meu prédio e, abre-se perante mim, outro obstáculo: a escada! Já houve momentos em que me encontrando incapacitada, era uma ansiedade subi-la ou descê-la, porque quem licenciou esta construção não teve em conta que outro tipo de acesso, em rampa, seria mais inclusivo e responderia a todos e todas sem criar discriminações. As nossas casas, são pensadas para um clima “temperado”, por isso quando as temperaturas descem tornam-se autênticos frigoríficos, porque quando foram construídas a eficiência energética não foi um parâmetro a ser equacionado, hoje no inverno sofremos não só com o frio, mas se o quisermos atenuar, com o peso que as faturas de energia assumem no nosso orçamento familiar.
Penso que, havendo programas municipais, de reabilitação de imóveis, é de se pressionar para que sejam tidas em conta as correções a fazer nos aspetos que fui referindo bem como noutros, a largura dos corredores, dos elevadores e das portas, a organização das casas-de-banho, com suportes de apoio e polibans que possam contribuir para que possamos permanecer no nosso lar o maior tempo de vida possível.
A criação de redes de apoio domiciliário, não apenas centrado na saúde e alimentação, mas nos cuidados de higiene da pessoa e da sua habitação, por freguesia, seriam fatores que aliviariam o recurso a internamento em lares. Mesmo os centros de dia, na minha ótica, deveriam ser espaços de convívio de adultos, sem a componente lúdica, quase infantil, que têm atualmente, transformando-se em zonas de partilha de experiências, de cultura, de leitura, de convívio social, fundamentalmente, de combate à solidão. Há experiências que advogam que o estímulo de cuidar de um animal tem efeitos enormes na saúde mental e afetiva, permitindo mesmo serem instrumento de convívio social ao obrigarem o dono ir à rua para os passear.
Um dia destes, fui levantar dinheiro ao multibanco, à minha frente uma idosa pediu-me ajuda porque não sabia como o fazer, apoiei a senhora, mas no fim alertei-a para o perigo a que se expôs quando me fez este pedido…há que pensar a cidade criando mecanismos de discriminação positiva, nos bancos, supermercados, que tenham sempre alguém preparado profissionalmente para intervir nestas situações. Quando não se consegue chegar à prateleira mais alta onde está o artigo que se deseja levar, está-se, não só, a diminuir a pessoa em si, como a aprofundar o sentimento de incapacidade de viver em espaços que se apresentam hostis e cheios de obstáculos!
Há que mudar todo este paradigma, a solução não está em fechar as pessoas em espaços onde isto permaneça escondido, mas sim em desenvolver políticas que humanizem os espaços, que devolvam a cidade, a urbe, a quem ela pertence: às pessoas!
Artigo publicado originalmente em Notícias APRe!, N 10, novembro de 2022