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Eu ainda não me esqueci da espada que temos suspensa sobre as nossas cabeças. E, não, não é a de Dâmocles. É, sim, a da construção de uma incineradora, em São Miguel.

Eu ainda não me esqueci - e, seguramente, muitos/as de vós também não - da espada que temos suspensa sobre as nossas cabeças. E, não, não é a de Dâmocles. É, sim, a da construção de uma incineradora, em São Miguel, contra tudo, contra todos/as e a favor não se sabe muito bem de quem... ainda.

Em Abril deste ano, numa breve reflexão que fiz sobre esta matéria (em artigo publicado neste mesmo Jornal), chamei a atenção para algumas das demasiadas incoerências, ilusionismos, cumplicidades e desfaçatez, que perpassam toda uma história muito mal contada e pior protagonizada.

Disse, então:

"É incompreensível que a AMISM, apesar de anunciar que terá financiamento para a instalação de um TMB à cabeça da incineradora, não pretenda sequer redimensionar a mesma, ignorando a inevitável redução da quantidade de resíduos que para ela serão enviados. É inaceitável que, apesar deste facto, apesar de todos os alertas e riscos já apontados, apesar de todos os argumentos e apelos para que este processo seja travado, o presidente da AMISM - qual Capitão-Donatário! -, leve a sua decisão avante, mesmo que para isso tenha que se contradizer, publicamente, vezes sem conta. É legítimo perguntar porque razão, nada, nem ninguém, consegue demover a AMISM e o seu presidente, da intenção de levar por diante este projeto. É obrigatório continuar a dizer – bem alto! – que a decisão anunciada de adjudicar a construção de uma incineradora em São Miguel é um grave erro, na medida em que terá consequências muito negativas para a saúde pública e para o ambiente, para além do seu gigantesco custo económico, imediato e futuro. É urgente alertar todos/as para o facto deste ser um projecto megalómano e insustentável, com pesados custos para os/as contribuintes".

Hoje, não só não retiro uma palavra do que disse, como me vejo obrigada a acrescentar outras - tendo em conta declarações recentes de vários responsáveis políticos (e não só) da nossa Região, bem como a suspensão de todo o processo pelo Tribunal, em resultado de uma queixa apresentada pela empresa preterida, no concurso público para a construção da malfadada incineradora. Vejamos:

O advogado da referida empresa afirmou (e não foi desmentido) que o financiamento do projecto não está garantido, por quaisquer tipo de fundos. O candidato do PS à autarquia de Ponta Delgada (ex-secretário regional) defendeu que, caso fosse eleito, não assinaria o actual projecto. O presidente de câmara da Ribeira Grande afirmou que só com outras pessoas à frente da AMISM pode haver uma nova análise de todo o processo. O ex-presidente de câmara da Praia da Vitória firmou que todo o processo 'incineradora' queima as mãos de quem lhe tocar. E a incineradora da Terceira, comprovada e incompetentemente sobre-dimensionada, clama por lixo, lixo e mais lixo... venha ele da Madeira, de Itália ou, em última análise, de São Miguel!

Dito de outra maneira: - não sendo este, presumivelmente, um caso de vida ou de morte, ninguém tem já qualquer dúvida que é, descaradamente, um caso de negócio, de um grande negócio, só não sabemos para quem.

E, tão ou mais importante do que conhecer os contornos deste negócio, é recusar que os seus interesses e interessados se sobreponham ao bem comum. Esta incineradora?! Cruzes canhoto!!!

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda. Deputada à Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, desde outubro de 2008.
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