Celebrar o trabalhador e não o trabalho

porFrancisca Sousa

01 de maio 2026 - 12:17
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O Dia do Trabalhador representa anos de luta pela conquista dos direitos que todos os trabalhadores, independentemente da área em que trabalham, dispõem nos dias atuais. Estes direitos, que vão desde o direito à compensação em caso de despedimento ao direito da licença de maternidade ou paternidade, estão, hoje, em risco.

Ainda hoje, em contexto de sala de aula, questionei os alunos presentes se sabiam o porquê de ser feriado na próxima sexta-feira. Muitos responderam que era ‘dia do trabalhador’ – ao que eu perguntei o porquê de ser importante celebrar este dia. Aqui, muitos responderam que não fazia sentido esta celebração, pois ‘se é Dia do Trabalhador, porque é que não se trabalha?’. Aqui entra uma distinção importante: o que é o trabalho e o que é o trabalhador.

Pela definição do dicionário Priberam, ‘trabalhador’, como adjetivo e nome masculino, é alguém “que ou quem trabalha”1. Fruto de um sistema onde o lucro é fulcral para a sobrevivência, o trabalho ocupa a maior parte dos nossos dias. Acordamos, fazemos uma rotina matinal ‘despachada’, deslocamo-nos para o nosso local de trabalho – algo que, por vezes, já nos tira horas do nosso dia – e trabalhamos, cerca de oito horas. Quando finalmente chegamos a casa, quantos de nós ainda têm de continuar a trabalhar ou a fazer outro tipo de tarefas! E o tempo pessoal, onde está? Já o termo ‘trabalho’, pela definição consultada no mesmo dicionário, tem uma definição mais extensa, mas todos os significados encontram um sentido quase comum – é o “ato de trabalhar”2, o ato de exercer uma função que, à priori, será remunerada. Se o trabalho é algo que tem um impacto tão grande na vida daquele que trabalha, o trabalhador, qual é, então, a importância deste dia?

O Dia do Trabalhador já é algo de tradição da Igreja Católica – o que é possível aferir pela existência de um santo, S. José Operário. No entanto, as origens desse dia são mais facilmente associadas à cidade de Chicago no final do século XIX, ao movimento associativista em cooperação com o operariado e à luta pelo dia de trabalho de oito horas. À medida que crescem as manifestações, nasce o movimento operário. Num suposto encontro pacífico, morre um polícia e são enforcados quatro homens pela sua morte. Considerando a forte repressão policial e as mortes destes quatro homens, é proposta uma celebração no dia 1 de Maio de 1890 – cujo sucesso e celebração contínua originou o Dia do Trabalhador como o conhecemos.

A celebração chegou, eventualmente, a Portugal, marcada pela luta e pela festa. As primeiras conquistas espelharam-se na legislação sobre o trabalho das mulheres e das crianças; após a implantação da Primeira República, é conquistado o dia de trabalho de oito horas e a semana de trabalho de seis dias. Até à década de 1960, o Estado Novo procurou dar um novo significado ao 1.º de Maio – no sentido de glorificar o trabalho, e não os direitos dos trabalhadores. No rescaldo da candidatura de Humberto Delgado em 1958, que vai abalar o regime, o 1.º de Maio de 1962 representa outra crise do regime. Desde o 25 de Abril de 1974 que somos livres para sair à rua e lutar pelas causas e direitos que tanto nos dizem – e é importante manter a luta viva!

Regressando, assim, à reflexão inicial, então porque é que é importante celebrar o 1.º de Maio? O Dia do Trabalhador representa anos de luta pela conquista dos direitos que todos os trabalhadores, independentemente da área em que trabalham, dispõem nos dias atuais. Estes direitos, que vão desde o direito à compensação em caso de despedimento ao direito da licença de maternidade ou paternidade, estão, hoje, em risco. O pacote laboral que o governo tanto fala impor contribui para o aumento da precariedade laboral e não a produtividade – visa medidas como facilitar os despedimentos dos trabalhadores, que ficam sem indemnização, ou o regresso do direito de o patrão contactar os trabalhadores após o horário de trabalho. Neste Dia do Trabalhador, é urgente sair à rua e protestar acerca dos direitos dos trabalhadores. Não nos esqueçamos dos anos de luta, dos direitos conquistados e do que ainda está por conquistar.


Publicado no Jornal de Guimarães

1 https://dicionario.priberam.org/trabalhador

2 https://dicionario.priberam.org/trabalho

Francisca Sousa
Sobre o/a autor(a)

Francisca Sousa

Professora. Dirigente distrital de Braga do Bloco de Esquerda
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