Ainda hoje, em contexto de sala de aula, questionei os alunos presentes se sabiam o porquê de ser feriado na próxima sexta-feira. Muitos responderam que era ‘dia do trabalhador’ – ao que eu perguntei o porquê de ser importante celebrar este dia. Aqui, muitos responderam que não fazia sentido esta celebração, pois ‘se é Dia do Trabalhador, porque é que não se trabalha?’. Aqui entra uma distinção importante: o que é o trabalho e o que é o trabalhador.
Pela definição do dicionário Priberam, ‘trabalhador’, como adjetivo e nome masculino, é alguém “que ou quem trabalha”1. Fruto de um sistema onde o lucro é fulcral para a sobrevivência, o trabalho ocupa a maior parte dos nossos dias. Acordamos, fazemos uma rotina matinal ‘despachada’, deslocamo-nos para o nosso local de trabalho – algo que, por vezes, já nos tira horas do nosso dia – e trabalhamos, cerca de oito horas. Quando finalmente chegamos a casa, quantos de nós ainda têm de continuar a trabalhar ou a fazer outro tipo de tarefas! E o tempo pessoal, onde está? Já o termo ‘trabalho’, pela definição consultada no mesmo dicionário, tem uma definição mais extensa, mas todos os significados encontram um sentido quase comum – é o “ato de trabalhar”2, o ato de exercer uma função que, à priori, será remunerada. Se o trabalho é algo que tem um impacto tão grande na vida daquele que trabalha, o trabalhador, qual é, então, a importância deste dia?
O Dia do Trabalhador já é algo de tradição da Igreja Católica – o que é possível aferir pela existência de um santo, S. José Operário. No entanto, as origens desse dia são mais facilmente associadas à cidade de Chicago no final do século XIX, ao movimento associativista em cooperação com o operariado e à luta pelo dia de trabalho de oito horas. À medida que crescem as manifestações, nasce o movimento operário. Num suposto encontro pacífico, morre um polícia e são enforcados quatro homens pela sua morte. Considerando a forte repressão policial e as mortes destes quatro homens, é proposta uma celebração no dia 1 de Maio de 1890 – cujo sucesso e celebração contínua originou o Dia do Trabalhador como o conhecemos.
A celebração chegou, eventualmente, a Portugal, marcada pela luta e pela festa. As primeiras conquistas espelharam-se na legislação sobre o trabalho das mulheres e das crianças; após a implantação da Primeira República, é conquistado o dia de trabalho de oito horas e a semana de trabalho de seis dias. Até à década de 1960, o Estado Novo procurou dar um novo significado ao 1.º de Maio – no sentido de glorificar o trabalho, e não os direitos dos trabalhadores. No rescaldo da candidatura de Humberto Delgado em 1958, que vai abalar o regime, o 1.º de Maio de 1962 representa outra crise do regime. Desde o 25 de Abril de 1974 que somos livres para sair à rua e lutar pelas causas e direitos que tanto nos dizem – e é importante manter a luta viva!
Regressando, assim, à reflexão inicial, então porque é que é importante celebrar o 1.º de Maio? O Dia do Trabalhador representa anos de luta pela conquista dos direitos que todos os trabalhadores, independentemente da área em que trabalham, dispõem nos dias atuais. Estes direitos, que vão desde o direito à compensação em caso de despedimento ao direito da licença de maternidade ou paternidade, estão, hoje, em risco. O pacote laboral que o governo tanto fala impor contribui para o aumento da precariedade laboral e não a produtividade – visa medidas como facilitar os despedimentos dos trabalhadores, que ficam sem indemnização, ou o regresso do direito de o patrão contactar os trabalhadores após o horário de trabalho. Neste Dia do Trabalhador, é urgente sair à rua e protestar acerca dos direitos dos trabalhadores. Não nos esqueçamos dos anos de luta, dos direitos conquistados e do que ainda está por conquistar.
Publicado no Jornal de Guimarães