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Cavaco: Presunção e água benta

Ao recandidatar-se, o actual presidente quis que pensássemos que sem ele estaríamos bem pior.

Faltam-me as palavras exactas, mas sei que respeito a ideia. Ao recandidatar-se, o actual presidente quis que pensássemos que sem ele estaríamos bem pior. Admitamos. Algumas coisas há-de ter feito pelo bem da nação e é, até, possível que uma ou outra tenha corrido bem. Mas ocorre perguntar: quem não terá, ao longo destes anos, feito alguma coisa pelo bem da nação? Não estaria ela, por exemplo, bem pior sem os que ainda trabalham? Que seria dela sem os que pagam impostos? Se lhe faltassem os bombeiros e os professores, os mineiros e os enfermeiros, e os electricistas e os doutores, no masculino e no feminino, listados até ao fim desta coluna e continuados na seguinte, que os ofícios modernos se multiplicam quase tanto como os desempregados e as desempregadas? Fica-me, assim, a dúvida: ter feito alguma coisa pelo país, ter realizado algo para que ele não ficasse pior, é razão bastante para uma recandidatura?

Ocorre-me em seguida uma pergunta bem mais angustiosa: e será que ele só fez bem? Será que não contribuiu para que o país ficasse pior? É possível a alguém com responsabilidades esgrimir-se das ditas quando tudo corre mal e delas se apropriar se correm bem ou menos mal? Eu sei, por exemplo, porque nunca votei Cavaco Silva. Lembro-me do seu papel no modo como desaproveitámos os fundos europeus em quilómetros sem fim de auto-estradas. Lembro-me do seu grande contrato – o da “vida a crédito” - de “contenção salarial” numa mão e endividamento bancário na outra. Lembro-me da polícia na ponte 25 de Abril e de como nessa altura o então primeiro-ministro era tão inaturável quanto o actual. Mas, sim, reconheço que tudo isso é passado. Reconheço, até, que o volume de mal-feitorias que se podem praticar a partir do Palácio de Belém é incomensuravelmente inferior às que se desenham na residência oficial de São Bento. Só não percebo, desculpem lá qualquer coisinha, é como é que alguém se pode arrogar só fazer o bem, a não ser que se sinta deus ou demiurgo, santo ou santinho, senão anjo ou anjinho.

Ainda por cima, o presidente agora recandidato sabe que o essencial lhe escapa, não apenas por aí, mas também por aqui, por Bruxelas, de onde escrevo. Cavaco Silva não governa e ele, melhor do que qualquer outro, sabe isso. Sabe, também, que não impõe orçamentos, embora estes precise de assinatura. E pelo menos suspeita que Pedro Passos Coelho é mouco. O líder laranja resignou-se não porque escute Belém, mas porque o sistema de que faz parte, o da Crise como regime político, a isso o obriga e ponto. Quatro banqueiros, Pina Moura e Durão Barroso são, à vez e em uníssono, bem mais eficazes do que Cavaco Silva. É impossível que este não saiba que assim é. Já sei porque não aprecio particularmente a figura. É que por detrás da sua pose hirta e modesta se esconde boa parte da história mal contada da crise em que o país se afunda.

Sobre o/a autor(a)

Eurodeputado, dirigente do Bloco de Esquerda, jornalista.
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