Eis que Cavaco ameaça com o veto presidencial os cortes do Governo ao ensino privado e cooperativo. A questão não está na crítica aos cortes, apenas defensáveis dentro do modelo de ortodoxia financeira que recusa outras alternativas para combater a crise económica. O ponto reside no facto de Cavaco nunca se ter preocupado com as machadadas no Serviço Nacional de Saúde, nos transportes públicos, na escola pública, nas bolsas a estudantes…O candidato só se agita quando a sua «gente» é afectada. E Cavaco pensa muito mais nos negócios do que na qualidade de ensino ou nas crianças de origens sociais desfavorecidas que também estudam no ensino particular e cooperativo. Convém nunca nos esquecermos como floresceram as Universidades privadas quando ele foi primeiro-ministro, o surgimento dos turbo-professores e a intensa promiscuidade entre essas empresas da educação e o mundo da política que vai do PS ao CDS, já para não falar da ausência de fiscalização ao lixo científico e pedagógico por que se notabilizaram, com raras e honrosas excepções.
É este o Cavaco da nomeação de Dias Loureiro para conselheiro de Estado, o mesmo que tinha sentado no conselho de administração do BPN uma parte substancial do seu antigo Conselho de Ministros. O mesmo que ficou calado com a injecção brutal de capital público (dinheiro de todos os contribuintes) nesse elefante branco da alta finança.
Cavaco Silva é o porta-estandarte de uma burguesia financeira em reconstituição que quer lucrar com a actual crise de que foi em boa medida responsável. Uma burguesia rentista, que muito pouco ou nada aposta na inovação e na qualificação, estando sempre disponível a beber das ajudas do Estado que vilipendia.
Para este senhor, aliás, a solidariedade começa e acaba nos chás de caridade, na assistência filantrópica ou na mítica «responsabilidade social das empresas».
Importa, pois, a cada momento, situar Cavaco e a sua corte.