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Campanhas, Gafes e Fait Divers

É muito mais fácil comentar uma gafe ou um outro qualquer fait divers do que discutir política.

Cerca de uma hora depois de Louçã ter vencido o debate com Sócrates, um fait divers indiscutível, mas com um poder de propagação avassalador, tomou conta do espaço público. A “gafe púbica” de Eduardo Catroga fez com que as redes sociais ficassem submersas com esta questão. Piadas, trocadilhos, comentários de todos os gostos e feitios encheram os murais do facebook. E nos próximos dias, não é necessário ser-se mago para se adivinhar que este será um tema recorrente. Será falado nos locais de trabalho, nos cafés, nos transportes públicos, nos jantares de família, entre muitas outras paragens.

Torna-se quase escusado dissertar muito sobre o porquê destas virtualidades ganharem uma dimensão tão expressiva no espaço público. A razão é simples: é muito mais fácil comentar uma gafe ou um outro qualquer fait divers do que discutir política; é muito mais simples ter-se uma conversa de circunstância com alguém mencionando estas “consensualidades” do que discutir o estado do país e quais as alternativas para o enfrentar.

Os efeitos deste tipo de fenómenos que invadem o espaço público para as forças políticas em disputa são notórios. Para quem os comete ou é atingido por eles, transformam-se numa espécie de maldição desgastante que se cola à sua imagem. Para os respectivos oponentes políticos, podem ser uma dádiva vinda dos céus. Mas todo o ruído criado permite ainda que este tipo de situações provoque desequilíbrios significativos muito para além do cenário de uma parte prejudicada em benefício das restantes. Tome-se como exemplo este caso “púbico”: com a sua gafe, Catroga conseguiu não só dar um tiro no pé, como ofuscar milagrosamente alguns dos efeitos da derrota que Sócrates acabara de sofrer frente a Louçã. É caso para dizer que o primeiro-ministro deve agradecer a Catroga pelo menos duas vezes.

Não há campanhas sem gafes e fait divers. São uma espécie de inevitabilidades que surgem quase naturalmente, cuja sobrevivência é garantida pelo interesse das partes em competição. Como é evidente, os jornalistas e opinion makers poderão ter um papel acrescido com vista a minimizar os desequilíbrios provocados pelas mesmas. Mas a surpresa com que surgem e os efeitos descontrolados que geram são tão significativos que mesmo a sua minimização se torna quase inglória. É caso para dizer que as gafes e fait divers são um elemento central de imprevisibilidade no combate político que se gera numa campanha eleitoral. É bom que se desvalorizem estas lateralidades, mas é obrigatório as forças políticas em competição contarem com elas.

Sobre o/a autor(a)

Politólogo, autor do blogue Ativismo de Sofá
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