Em menos de um ano, o que parecia inimaginável aconteceu. Zohran Mamdani, um jovem de 34 anos, nascido no Uganda e de ascendência sul-asiática, muçulmano e socialista (membro do DSA – Democratic Socialists of America), venceu de forma assinalável as eleições para a Câmara de Nova Iorque, a maior e a mais rica cidade dos EUA, com cerca de 8.5 milhões de habitantes nos 5 bairros, um acontecimento com repercussões à escala global.
A 4 de novembro de 2025, “derrubámos uma dinastia política” (“My friends, we have toppled a political dynasty”) – disse Mamdani aos apoiantes na noite eleitoral. Votaram nestas eleições autárquicas mais de 2 milhões de pessoas, as mais participadas desde 1969, com um aumento de participação de 84% em relação a 2021. Zohran Mamdani teve mais de 1 milhão de votos (1.114.184 ou seja, 50,8%), quase tantos como o total de votantes em 2021; Andrew Cuomo, que concorreu como independente) teve 906.614 (41,3%) e Curtis Sliwa (candidato dos republicanos) ficou-se pelos 153.749 (7%). À última da hora, Trump transferiu o seu apoio para Cuomo deixando o candidato republicano abandonado à sua sorte. Contra tudo e contra todos, Mamdani derrotou os senhores da finança, Donald Trump, o lobby sionista e o establishment democrata. Mamdani foi alvo de ataques de todo o tipo, sobretudo racistas e xenófobos. Os mais ricos ameaçaram deixar NY e mudarem-se para outras cidades do Estado ou de outros estados. Foi atacado por ser jovem, por ser muçulmano e por ser socialista, insultado de antissemita, jihadista e acusado de querer transformar Nova Iorque num califado. Trump chegou mesmo a ameaçá-lo com a deportação (Mamdani só é cidadão norte-americano desde 2018).
A surpresa tinha começado já nas primárias do Partido Democrático em finais de Junho. Mamdani ganhou por 56,4%, contra os 43,6% de Andrew Cuomo (ex-governador do Estado de Nova Iorque que foi forçado a demitir-se há 3 anos por acusações de assédio sexual). Cuomo centrou a sua campanha na suposta questão da insegurança em Nova Iorque, dizendo que a cidade estava fora de controlo. Mamdani contrapôs-lhe a ideia de uma cidade de que os seus habitantes gostavam e não queriam ter de a deixar e de como poderia ser diferente viver em Nova Iorque se esta fosse acessível.
No Verão 2024 a possibilidade de Mamdani se vir a candidatar era tida como mais um boato. Em Outubro 2024 decidiu-se finalmente a avançar. Há cerca de um ano, as sondagens davam-lhe 1%. Era um candidato realmente desconhecido do grande público. Tão desconhecido que em Fevereiro deste ano casou-se com Rama Duwaji, uma ativista e artista de ascendência síria cujo magnífico trabalho vale a pena conhecer. Uma amiga de ambos, a fotógrafa Kara Mc Curdy, acompanhou-os nesse dia a pé ou de metro desde Astoria (Queens) até ao registo civil no centro de Manhattan, sem que Mamdani tivesse sido abordados quer pelos passageiros quer pelos transeuntes, o que hoje seria de todo impossível.
Eixo da campanha: Make New York affordable
A campanha de Mamdani interpretou o descontentamento e conseguiu transformar o ressentimento em esperança e mobilização. Não fez nenhuma concessão à extrema-direita sobre temas “quentes” como o genocídio de Gaza. Sobre isso afirmou claramente que se ganhasse, mandaria prender Benjamin Netanyahu se este pusesse os pés em Nova Iorque. E continua a dizê-lo, agora que Netanyahu fez constar que quer mesmo visitar Nova Iorque. Ou sobre imigração e segurança: disse e continua a dizer que em Nova Iorque não haverá lugar a raids da ICE.
Mas centrou a campanha em temas simples e universais, contra a ideia de uma cidade em crise e decadência, lutar por uma cidade em que seja possível e agradável viver. Para isso é necessário tornar a cidade acessível (“affordable”) para todos, congelando as rendas estabilizadas, garantindo creches gratuitas para todas as crianças dos 6 meses aos 5 anos de idade, transportes públicos gratuitos e criando uma rede de mercearias da autarquia para venda de produtos essenciais a preços mais baixos que nas cadeias de supermercados. E propôs uma forma “simples” de financiar este programa: uma reforma fiscal que aumente o IRC para valores iguais aos de estados vizinhos (o que daria uma receita de 5 mil milhões) e a criação de um imposto extra sobre os multimilionários (1% da população), aplicando uma taxa extra de 2% a quem tenha rendimentos de mais de um milhão de dólares por ano (4 mil milhões de dólares por ano). Mamdani argumentou que os multimilionários que apoiaram Cuomo gastaram mais dinheiro numa campanha para o atacar do que o que teria sido coletado se a sua proposta fosse vencedora. Os detalhes de todas as propostas podem ser vistos aqui.
Como é que este programa ganhou uma maioria social?
Mamdani lançou a sua campanha para as primárias do Partido Democrata poucos dias depois da eleição de Trump em novembro de 2024.
Procuraremos analisar aqui algumas das razões do sucesso, focando-nos principalmente em dois aspetos: a campanha de comunicação e a campanha de rua. Aliás, foi precisamente a combinação das duas que assegurou a vitória. E o que nos foi chegando são ecos e imagens de uma campanha feita de esperança, empatia e alegria.
A utilização das redes sociais em larga escala
Uma grande parte dos vídeos foram feitos na rua, enquanto Mamdani caminhava. Tanto apresenta as suas propostas como entrevista transeuntes ou vendedores de comida de rua. Em alguns apresenta propostas, em muitos quer conhecer as opiniões dos entrevistados. Os vídeos são muito criativos e dinâmicos. Podemos ver Mamdani a mergulhar nas águas geladas de Coney Island (Brooklyn) em pleno inverno, para explicar a proposta de congelamento de rendas, ou a passear-se segurando balões em forma de coração no dia dos namorados para apelar à inscrição no recenseamento eleitoral.
A estratégia de comunicação pode ser melhor compreendida nesta entrevista à sua equipa de vídeo. Mas essa estratégia nunca esteve desligada do conteúdo político da mensagem. Diz um dos membros da equipa que “se não houver um candidato cuja plataforma política se foca nas classes populares e nas suas lutas, não há nenhum vídeo que o possa fazer por ele.
A campanha de rua e o porta a porta
Por melhor que fossem os vídeos e a campanha das redes sociais, o seu impacto teria sido muito mais reduzido sem a fortíssima campanha de rua que foi posta em ação. Ela envolveu mais de 100 mil voluntários que bateram a mais de 3 milhões de portas. Aliás, como é explicado na entrevista acima, foram não raras as vezes em que os eleitores conheciam os vídeos mas não sabiam bem que ia haver eleições e foi pela conversa presencial que foram ganhos para o voto.
Os mesmos ou outros voluntários faziam bancos de chamadas telefónicas (mais de 4,5 milhões) ou enviavam mensagens (cerca de 2,7 milhões).
Mamdani teve uma presença intensa na rua. Aliás, a maior parte dos seu vídeos foram gravados na rua, muitos deles enquanto caminhava.
Em Junho, poucos dias antes das primárias do Partido Democrata, fez uma marcha com apoiantes que percorreu Manhattan de norte a sul. A mensagem é que queria ser um presidente que os nova-iorquinos pudessem ver em carne e osso e a quem pudessem até gritar.
A questão da Palestina
Nos últimos dois anos Nova Iorque conheceu das maiores mobilizações contra o genocídio em Gaza, com manifestações de rua, acampamentos nas Universidades, ocupações do espaço público como estações de comboios e outros.
Como em todo o país, o movimento pró-palestina criou uma rotura séria e duradoura não só com o partido republicano mas também com o partido democrata, apoiante de Netanyahu e do genocídio. Mamdani fez parte desse movimento e a sua campanha teve um entrosamento natural com ele. Acresce que depois de Tel Aviv, Nova Iorque é a cidade do mundo com mais judeus, mas também com uma forte tradição anti-sionista pelo menos desde há um século, o que ficou patente em algumas das mobilizações mais fortes contra o genocídio em Gaza levadas a cabo pela Jewish Voice for Peace ou If Not Now ou outras organizações de judeus anti-sionistas. Não é pois de estranhar que Mamdani tenha recebido um apoio considerável dos judeus nova-iorquinos.
Desafios
Enfrentar os poderes estabelecidos não vai ser fácil para a equipa de Mamdani. Apesar do suposto sucesso da visita de Mamdani à Casa Branca, não é nada certo que a ofensiva de Trump tenha sido aplacada. Todos os lóbis e interesses vão-se mobilizar para atacar, boicotar, torpedear o sucesso deste projeto.
Nas semanas desde a eleição, Mamdani rodeou-se de uma equipa com fortes raízes e experiência de trabalho nas comunidades ou em serviço público (“The best team of people that money can´t buy”, como ele próprio diz). Ganhar aos poderes estabelecidos vai requerer diplomacia, sem dúvida. Mas é essencial que o movimento de massas que construiu a vitória continue forte, ativo e interveniente. Não desistir de criar comunidade poderá ser a chave do sucesso do mandato.
Esta campanha demonstrou que mesmo na era da hiperpolítica é possível construir mobilização e energia coletivas que contrariam a ideia de uma participação individualista e atomizada. É mesmo possível retirar as pessoas da sua solidão e encontrar alegria na participação política.
Artigo publicado em Anticapitalista #84 – Janeiro 2026