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Cães com donos potencialmente perigosos

Com o recente triste acontecimento que nos chegou do ataque a uma criança sentiu-se, mais uma vez, a necessidade de debater a temática sobre os cães potencialmente perigosos.

O que são animais potencialmente perigosos? Animais que são treinados pelos seus donos para atacar indiscriminadamente ou que são perigosos naturalmente, por instinto (ou pelo ADN como nos querem fazer acreditar)?

Um cão das forças de segurança ou militares deixa de ser dócil após ser treinado ou reage a situações específicas, por ordem do seu detentor? E quantas vezes vemos cães das forças de segurança a serem mostrados em ações de sensibilização com crianças e que noutros momentos são instrumentos agressivos de contenção popular?

Tantas perguntas geram muita confusão e necessitam de sensatez na sua resposta.

Em primeiro lugar há que desmistificar a perigosidade destes animais. Eles são perigosos porque quem os possui é perigoso e irresponsável. Não basta querer ter um animal, é preciso ter responsabilidade e assim bem como perceber se estão reunidas as condições necessárias para o controlar. Não porque ele é perigoso mas porque poderá ser simplesmente difícil de segura-lo porque ele não tem a capacidade, como nós, de refrear a sua reação a determinadas situações.

Falar de raças perigosas e dizer que os animais são “naturalmente” perigosos, por questões de ADN é tão errado quanto dizer que quem vive nos bairros sociais só sabe viver dos subsídios ou do crime e que as mulheres só servem para estar em casa. E nós, pessoas? Vamos discutir a posse de arma, a habilitação para a condução, a capacidade parental? Será que o nosso ADN também nos potencia para sermos perigosos? Ou será que comportamentos formam comportamentos?

Esta forma errada de pensar e estar cria estigmas que nos impedem de crescer e avançar.

E passamos para a solução que, como já é habitual, passa por criar uma relação comercial. Chamemos-lhe PPT (Pagar Para Ter). Para podermos ter como companhia um animal de uma raça potencialmente perigosa pagamos para treinar. O animal, não a pessoa.

Torna-se necessário garantir que a solução não passe unicamente por criar uma relação comercial com o treino e a certificação de treinadores. É importante entender que existem custos inerentes à formação destes animais mas considerar os custos de não a ter ou de a mesma ser tão dispendiosa que crie um mercado alternativo de formação que reforce a ideia de que é só pagar para ter não ajudará a fomentar uma consciência de responsabilização.

E conseguiremos com o treino garantir que estes animais não tenham comportamentos inerentes a um animal? Será impossível. Existirão casos, poucos ou raros esperemos, que nos dirão que só o treino não chega. Será necessário juntar responsabilidade e seriedade, como sempre foi. Mais importante do que obrigar ao treino dos animais é preciso responsabilizar os detentores dos animais e regular o comércio.

Ter um animal é tão responsável quanto outras obrigações. Os animais são o que são e mudam com o nosso contributo. Perigosos são os atos irresponsáveis das pessoas.

E nesta matéria não recuamos. Enquanto alguns anunciam também o Diabo, baseados em conversas de bancos de jardim e histórias de caçador, outros e outras lutam para uma mudança tão natural quanto as nossas vidas. Os animais sempre estiveram ao nosso lado e assim continuarão.

Sobre o/a autor(a)

Candidata do Bloco de Esquerda à Câmara Municipal da Amadora e deputada municipal. Professora aposentada. Dirigente sindical.
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