Sou uma pessoa comum, com gostos comuns, banais, sou mais um que se tenta safar no dia-a-dia. Pago impostos como muitos milhões de portugueses que dependem do seu trabalho, sofro com a inflação porque na empresa onde trabalho reina a insensibilidade e não subiram os vencimentos o suficiente para cobrir esse tal aumento, no mínimo, custam-me todos os dias os péssimos transportes que servem a zona onde moro e tenho, a tudo isto, de sorrir e agradecer. Acham eles. Se fosse um bom cristão, teria ainda de dar a outra face.
Como nasci e fui criado no Porto, o São João está-me na pele. Memórias são imensas: de puro gozo e prazer à loucura iminente, a ligação é quase perigosa. Tive de tudo, vi de tudo. Ou melhor, pensava que tinha visto e vivido tudo. Aos 52 ainda sou surpreendido.
Este ano a Metro do Porto - quiçá no passado, que estive uns anitos sem ir ver o fogo à baixa - decidiu que esta festa popular, livre e grandiosa, havia de ser também uma perseguição aos foliões: à saída das estações, das maiores estações, um batalhão de seguranças e muitos PSP´s barrava a saída e filtrava os “penetras” que não tinham validado bilhete. Imaginem: São João, 11 da noite, estação da Trindade. Só uma saída e fiscais a cumprirem ordens, com a polícia a vigiar. Os que não tinham a viagem certa eram mantidos de lado e identificados, autuados ali mesmo, no meio de uma enorme confusão. Agressões, empurrões, ânimos exaltados porque a multa não é pequena: a partir de 80€, e que pode ir até aos 350€. Nos dias que correm, e no dia em concreto, é um insulto.
O povo sofre mas lembra.
E no dia de votar
Vai lembrar-se do mandante
Da multa que foi pagar
Claro que numa noite destas há que assumir que a situação tem de ser diferente, porque as situações são excepcionais. A multa, em si, é desproporcional: uma viagem custa 1,50€ e a multa 50 vezes superior. É absurdo, é um disparate, é mesmo ir ao bolso indecentemente, sem apelo nem agravo. A verdade é que uma decisão destas não se toma levianamente, espero eu, e tem responsáveis, pessoas que conscientemente pensam nos actos e nas consequências. Não se criaram condições diferentes para as Queimas das Fitas, para os Coldplay e para as JMJ desta vida? Então porque se excluem os que querem, apenas, circular e participar numa festa popular? Se existe uma preocupação em dar tudo o que os turistas precisarão para se sentirem em casa, porque os fazemos passar por estas situações que vai merecer uma justa reprovação? Já imaginaram o que um vídeo de confrontos físicos faz pela (vossa, deles) imagem?
Tiago Filipe da Costa Braga tem um passado no Partido Socialista, glorioso e digno, por Juntas de freguesia com maiorias socialistas (Mafamude/Vila Nova de Gaia), tendo sido apoiante de Manuel Pizarro nas eleições internas no PS/Porto. É ele, actualmente, o Presidente do Conselho de Administração da Metro do Porto. Na Assembleia Geral de 2018 - é natural que estes valores tenham sido corrigidos, em alta - ao Presidente foi fixado um valor ilíquido de 4864,34€, pago 14 vezes por ano, acrescido de 40% a título de despesas de representação, no montante de 1.945,74€, pago 12 vezes por ano. E depois acumula, usufruindo de benefícios sociais de aplicação generalizada a todos os trabalhadores da empresa.
A cobrar uns 5 mil
No papel de Presidente
Não passa de jovem boy
Com pouco de consciente
Portanto, gostava de saber que conclusões vai tirar o Sr. Presidente e que “saldo” vai fazer da noite? Qual o valor apurado? Que resultado pode “entregar” ao restante Conselho de Administração? Já agora, está previsto algum “prémio de performance” no final do ano ou “apenas” vai ter de se contentar com os 5 mil euros mensais?
Às vezes ficamos prostrados (ou deviamos) com o que lemos escrito, nomeadamente pelo caro Sr Presidente no Relatório e Contas de 2021. “enquanto acionista, Estado e Autarquias, enquanto cliente, enquanto parceiro, enquanto fornecedor, empreiteiro, projetista ou prestador de serviços, enquanto financiador, enquanto trabalhador da empresa e do Sistema de Metro Ligeiro da Área Metropolitana do Porto” É só afecto, não é? Aquela máxima, “estamos todos no mesmo barco”. É lindo, já estou com a lágrima no canto do olho. A “cereja” é esta: “com o vosso contributo, atingimos os objetivos aos quais nos tínhamos proposto, tanto quantitativa como qualitativamente.” Sinto-me tocado por St. Liberalis, the third.
Venha a nós o dinheirinho
Sairemos a ganhar
E ninguém fala sobre isso
São João, vais perdoar?
Para além desta aura de “serviço público”, é claro que a empresa se preocupa, muitíssimo, com as contas. O último Relatório tem expressões como “em 2024 está previsto um aumento significativo do volume de negócios da Metro do Porto, que atingirá os 71,8 milhões de euros”. Isto pode ler-se no plano de atividades de 2022. "Prevêem-se taxas de cobertura dos gastos pelos rendimentos operacionais de cerca de 82% em 2021, 98% em 2022, 107% em 2023, 128% em 2024 e 130% em 2025". Que bom, não é? 130%! Dessa percentagem, é possível saber-se qual a parte imoral das multas cobradas indecentemente a quem vive miseravelmente?
Na verdade, estes burocratas vão no caminho de tantos outros que acham que a maioria das pessoas não consegue raciocinar sozinha. Vá lá, saiam da bolha. Isso rebenta-vos na cara.