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Biografia inconveniente em Abril

A geração que não viveu Abril só pode ter saudades da próxima revolução, mas leva consigo todas estas histórias.

Nasci numa família comum, situada na camada baixa da classe trabalhadora. Os mais velhos não foram resistentes, apenas sobreviventes. E tinham simpatias dispersas e/ou incoerentes: desde os que eram "portugueses de África" mas tínham simpatias pela UNITA e FNLA até ao meu avô ribatejano que diz que era "comunista" mas, como medo de "outra ditadura", votou no PS para a Constituinte. Ele e a maioria do povo.

Da parte materna era uma família de refugiados da guerra civil angolana. Pisaram Portugal continental pela primeira vez em 1975. O violento processo de deixar toda a vida para trás para viver numa terra estranha foi catalizador da sua desestruturação social.

O meu trisavô foi para Angola algures entre o final da monarquia ou já na república, não sabemos, é um palpite. As gerações seguintes, incluindo o meu bisavô Jaime, a minha avó Maria José, a minha mãe e os seus irmãos e irmãs nasceram em Angola. Viviam na Cáala, Huambo. O meu avô Abel fugiu da Madeira para ser trapesista num circo com o qual percorreu "algum mundo" até se fixar em Angola e se dedicar à agricultura. Já o pai dele tinha fugido muitos anos para a Venezuela, mas isso seria outra história.

A minha família paterna é de duas aldeias do concelho de Santarém: Moçarria e Póvoa do Conde. O meu pai e a minha tia nasceram em Lisboa, onde o meu avô Manuel foi trabalhar na construção civil como servente e depois, porque aprendeu a profissão, também como estucador e pedreiro. Ainda tentou a emigração para o Luxemburgo mas voltou depressa. A minha avó Guilhermina trabalhou ora como dona de casa ora lavando escadas e fazendo outras limpezas.

Com 6 e 11 anos, respetivamente, a minha mãe e o meu pai estavam em continentes diferentes e eram crianças no dia 25 de Abril. Ele fez apenas o 6º ano, "não gostava da escola e não queria ser malandro" por isso foi trabalhar com o meu avô para as obras. Viria, aos 18 anos, a entrar como varredor para a Câmara municipal de Santarém, tornando-se mais tarde contínuo, trabalho que acumulava com a profissão de pintor da construção civil aos fins de semana.

Ela desistiu da escola no 8º ano por problemas familiares e casou com o meu pai aos 17 anos. Trabalhou como operária fabril no setor alimentar, foi empregada de escritório, trabalhou na restauração, foi também varredora, servente de limpeza e administrativa na câmara municipal de Santarém. Por capacidades intelectuais superiores à sua escolaridade, exercer funções acima da sua remuneração, há quase duas décadas.

Nunca passei fome, mas houve tempos mais difíceis em que alguém passou por mim. Fui o primeiro licenciado da família graças ao Estado Social e à minha mãe, que passou tempos que não contei sem ter fins de semana, feriados ou férias. Os supostos dias de descanso eram dias em que se cansava mais ainda, trabalhando nas limpezas ou servindo à mesa em casamentos, para completar um salário que tinha de sustentar uma família que era monoparental desde os meus 7 anos e à qual se juntou a minha irmã, quando eu tinha 14 anos.

A única coisa que vou herdar é esta história, os afetos, o que aprendi. Só tenho pena de não me lembrar bem das histórias que me contava o meu bisavô António. Nascido em 1906, na Póvoa do Conde, tinha o meu bisavô 80 anos quando eu nasci, trabalhou no campo, chegou a ter uma taberna, foi guarda de jardim público. Autodidata, lia muito e conhecia a tradição oral. Ensinou-me quem foi o Pedro Alvares Cabral e o Pedro Malazartes. A sua própria história nunca ma contou, mas sei que tinha 20 anos quando começou a ditadura.

Nem todos os jovens de hoje são licenciados ou qualificados profissionalmente, nem a maioria do povo viveu bem. Estes 40 anos não foram fáceis, mas o salto de liberdade e de direitos sociais de Abril estão na raíz do melhor que nos aconteceu e nas possibilidades do melhor que fizémos, ainda que os que vieram refugiados não concordem.

As biografias de tanta gente comum nem sempre são as mais bonitas ou conveniente à esperança. É a vida que temos de mudar, como aquelas e aqueles que algum dia sonharam com as mãos o Socialismo português entretanto roubado. Como interesse imediato preocupa-me o direito ao trabalho e à habitação. Querer uma "casinha de bonecas" parece ser uma aspiração revolucionária, 40 anos depois de Abril.

A geração que não viveu Abril só pode ter saudades da próxima revolução, mas leva consigo todas estas histórias.

Sobre o/a autor(a)

Investigador. Mestre em Relações Internacionais. Dirigente do Bloco de Esquerda.
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