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The Bayer-Monsanto Red Wedding

Ou como os Lannister da indústria farmacêutica se juntam à mesa com os Bolton da agroindústria.

O mundo acordou esta semana com a notícia da compra da maior empresa transnacional de pesticidas e organismos geneticamente modificados (Monsanto) por uma das maiores empresas farmacêuticas (Bayer), gerando várias reações em diversos setores da sociedade e da economia.

Se para umas a compra da Monsanto pela Bayer surgiu repentinamente, para outras veio confirmar os sinais que desde o início do ano passado as grandes corporações na área da indústria química e farmacêutica têm dado: há uma corrida pelo controlo global do mercado da comida.

A fusão Bayer-Monsanto segue assim esta tendência da indústria químico-farmacêutica que ao criar grandes aglomerados económicos transnacionais adquire novas capacidades e poderes políticos que ameaçam ainda mais a soberania alimentar dos povos.

Mas isto não é uma novidade. As últimas duas décadas estão repletas de compras e fusões comerciais entre grandes e pequenas indústrias químico-farmacêuticas, acompanhadas de uma galopante desregulamentação das leis e padrões ambientais. Se no início dos anos 90 assistimos à compra, pelas grandes indústrias como a Monsanto, a Syngenta e a Dupont, de pequenas empresas na área da inovação biotecnológica e da comunicação digital, fosse através da aquisição da empresa em si ou das suas patentes, assistimos posteriormente e de forma mais acentuada à entrada destes gigantes corporativos nas universidades e institutos públicos de investigação no início do novo milénio. A fusão dos monstros corporativos não é assim uma surpresa, mas uma inevitabilidade oriunda no tipo de negócio que exercem. Ao contrário do que nos querem fazer acreditar, os últimos anos foram anos de queda nos preços dos produtos alimentares derivados de um excesso de produção ao nível global. Esta queda de quase 14% do valor médio dos alimentos (em Portugal esta queda não foi sentida) é acompanhada pela crescente dificuldade dos e das agricultoras em assegurarem os acordos comerciais estabelecidos no âmbito da aquisição de produtos como as sementes transgénicas e pesticidas, bem como do surgimento de novas resistências que ameaçam, essas sim, a produção, contribuindo para o tal cenário pós-apocalíptico com que estas empresas panfletariamente se justificam no sentido de legitimar o consumo excessivo de pesticidas como o glifosato.

Por outro lado, estas empresas encontram-se num momento de estagnação criativa, incapazes de gerar e colocar no mercado produtos que façam frente aos reais problemas da produção, assegurando o bem-estar ambiental e a saúde das populações humanas. Torna-se assim inevitável que as grandes companhias corram agora umas atrás das outras no sentido de combaterem a saturação económica em que se encontram. Foi aliás este o objetivo da tentativa da Monsanto de adquirir a Syngenta em 2015, tal como foi este o motivo para a fusão entre a Dow Chemical e a Dupont, e entre a ChemChina com a Syngenta este ano. Constituem-se assim as 3 maiores corporações mundiais que controlam agora 59% do mercado de patentes sobre sementes e 64% do mercado de todos os pesticidas.

Contradições dos monopólios da agroindústria

O paradoxo gerado pela fusão destas grandes corporações é assustador. Se os motivos que as levam à compra e fusão entre elas se prendem com o elevado preço dos seus produtos e a sua incapacidade de gerar novas alternativas e produtos inovadores, a fusão entre elas, principalmente quando as aquisições são feitas com valores superiores a 45% do valor de mercado destas, poderá resultar no agravamento do preço médio dos seus produtos, e numa ausência de competição criativa que lhe irá permitir reduzir custos com a investigação e inovação.

O resultado destas contradições é gritante, não só irão existir menos alternativas tecnológicas e investigação sobre os efeitos dos produtos comercializados por estas empresas, como irão sequestrar ainda mais os e as agricultoras pelo mundo precarizando a vida de quem realmente trabalha para nos alimentar, forçando a subida dos preços dos alimentos.

Em suma, estas empresas querem combater a fome no mundo forçando um aumento dos preços dos alimentos e agravando as condições de saúde dos ecossistemas agrícolas e comunidades humanas.

Quando o TTIP falha

Foi também este ano, e não há menos de um mês, que o tão aclamado TTIP começou a ruir. E se para algumas pessoas isto foi motivo de festejo, está na hora de arrumar os foguetes e apontar novamente as armas ao inimigo (de forma metafórica obviamente). É que os verdadeiros interessados e implicados no Acordo Transatlântico não estão sentados à espera que as parcas democracias europeias e norte-americanas se decidam a acordar que desacordam. A compra da Monsanto pela Bayer é isso mesmo. Este casamento vermelho entre os dois gigantes trará desafios à Europa que até agora temos conseguindo gerir. É que se o departamento de comunicação estratégica da Bayer for esperto, o nome Monsanto passará a estar apenas presente nas histórias de conspiração. A Bayer ameaça assim fazer desaparecer de um dia para o outro o rosto (mas não as práticas) da má conduta e falta de ética das atividades destas empresas. Por outro lado, por ser alemã a Bayer posiciona-se de forma muito mais estratégica no jogo pela desregulamentação dos OGMs na Europa. O irónico, é que tudo aquilo que representa a Monsanto de criminoso ecocida irá ser maquilhado pela imagem de uma empresa cujos crimes contra a humanidade se disfarçam de aspirina.

O negócio não está ainda concluído visto faltarem as avaliações e aval das agências de regulação europeia e norte-americana. Até lá, muitos casamentos ainda poderemos vir a ter.

Sobre o/a autor(a)

Estudante de Doutoramento em Governação, Conhecimento e Inovação CES/FEUC. Dirigente do Bloco de Esquerda
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