Autárquicas em Beja: alguma água na fervura e reorganização

porMadalena Figueira

02 de novembro 2025 - 12:30
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As sucessivas derrotas do Bloco exigem uma profunda reorganização do partido e uma reflexão coletiva. Um começo seria reverter a falta de capacidade de fixação no território e usar o trabalho autárquico como plataforma maior de crítica e alternativa anti-capitalista.

As eleições autárquicas de 12 de outubro eram particularmente relevantes por poderem representar no território a consagração da viragem política que aconteceu a 18 de maio. No entanto, se o resultado das legislativas indicou o início do fim da governação bipartidária do centrão e a ascensão drástica da extrema-direita, estas eleições mostraram um claro passo atrás nestas tendências. De facto, a realidade política é sempre bem mais complexa do que qualquer previsão.

O que é inegável é a queda generalizada da esquerda e, em particular, as derrotas sucessivas do Bloco de Esquerda. Este quadro deve fazer qualquer militante questionar a pertinência do projeto político, as escolhas coletivas assumidas e o que fazer a seguir. As condicionantes externas hostis à continuação do partido não nos retiram a exigência, antes pelo contrário. Precisamos de ter pensamento e lucidez adaptado à especificidade de cada região.

Por isso mesmo, o caso de Beja, capital do Baixo Alentejo, merece atenção – a coligação Beja Consegue (PSD, CDS e IL) ganhou as eleições, elegendo Nuno Palma Ferro presidente. É uma vitória histórica e simbólica para a direita portuguesa. Não fosse o desinvestimento crónico na região, e a direita aproveitaria este momento para consolidar a sua presença política no distrito, capitalizando Beja ao desempatar algumas obras públicas que têm sido sucessivamente adiadas.

No entanto, é preciso meter água na fervura sobre os resultados no concelho. O Beja Consegue ganhou com cerca de 5600 votos, conseguindo apenas ter dois eleitos, seguido do PS com 4800 votos e dois representantes, a CDU com 4000 votos e dois vereadores, e, por último, o Chega com 3000 votos e um eleito. Esta composição política do executivo exige frieza de análise.

Primeiro, o Chega não conseguiu mimetizar os resultados legislativos para o território, tendo um resultado muito mais fraco do que o profetizado. Depois, o Beja Consegue terá de negociar à peça e navegará à vista cada decisão política. O PS já rejeitou uma coligação permanente de ter um vereador a tempo inteiro no executivo municipal. Seria estranho que fosse a CDU a ceder a uma coligação deste género. Por fim, a CDU e o PS têm uma maior representação do que o Beja Consegue e o Chega juntos, podendo usar esta vantagem para definir a agenda e o tom político e não servirem de muleta a decisões danosas à população. Por tudo isto, este mandato pede uma grande atenção dos cidadãos e de todas as forças políticas.

Na primeira entrevista que deu, Palma Ferro mostrou a incerteza política da sua liderança de executivo, não só em matéria de alianças, mas também programática. Para questões centrais no concelho admite estarem em aberto ou demonstra uma falta de clareza na concretização. Dois exemplos paradigmáticos foram o aeroporto e o problema da habitação. Para o aeroporto aceita qualquer lógica de utilização – como cluster militar, como foi a proposta do Chega durante toda a campanha, a utilização por voos privados ou voos comerciais. Sobre habitação, refere a necessidade de despesa pública e querer usar a Estratégia Local de Habitação, mas não menciona que termina em 2026, nem muito menos identifica as prioridades de ação.

Faz um esforço para se mostrar como presidente quase-independente e sem cair em supostos vícios ideológicos partidários, mas as suas posições de fundo em nada se afastam da direita liberal tradicional. É notório nas suas preferências de mobilidade – finalização da A26 até Beja e desculpabilização do fecho das linhas ferroviárias pelos governos PSD; na lógica de integração dos imigrantes ser pela assimilação de costumes, mas não condenar a sua exploração pelos empregadores e senhorios; no modelo de desenvolvimento económico assente no grande agronegócio e nas monoculturas intensivas e super-intensivas; e ignorar por completo as situações de pobreza e exclusão extremas.

O Bloco de Esquerda em Beja teve um resultado muito fraco: cerca de 200 votos para a Câmara Municipal e quase o dobro para a Assembleia Municipal, ficando entre os 1,2 e os 2%, respetivamente. Este resultado no concelho não é alheio à tendência nacional do partido, ainda que tenha sido uma queda menor a nível local. Por cima disso, sublinhe-se três tendências específicas de Beja: Palma Ferro conseguiu sedimentar a imagem de oposição ao PS enquanto foi vereador no mandato anterior, a CDU conseguiu ser o voto útil da esquerda e o aparecimento do Chega disputou diretamente eleitorado connosco.

Perante estes resultados parece quase inevitável questionar a pertinência do projeto político do Bloco. No entanto, a consolidação de pensamento que se fez nesta campanha, de forma plural e construtiva, resultou num programa claro que destaca o monopólio político da crítica ao modelo de desenvolvimento económico e à sobre-exploração dos trabalhadores agrícolas. Nenhum outro partido tem uma palavra clara a dizer sobre o capitalismo selvagem de apropriação da terra por meia-dúzia de fundos de investimento que acontece na região. Aliás, foram agentes políticos ativos na construção e sedimentação deste modelo.

As sucessivas derrotas do Bloco exigem uma profunda reorganização do partido e uma reflexão coletiva. Um começo seria reverter a falta de capacidade de fixação no território e usar o trabalho autárquico como plataforma maior de crítica e alternativa anti-capitalista. A mobilização das pessoas e a disputa pelas ideias faz-se todos os dias.

Madalena Figueira
Sobre o/a autor(a)

Madalena Figueira

Economista
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