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A ausência de mulheres e a comunicação social

Nesta sociedade patriarcal a invisibilidade das mulheres torna clara a hierarquia que resulta das relações de poder entre homens e mulheres.

A Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género (CIG) atribuiu no passado dia 18 de Dezembro o Prémio Paridade: Mulheres e Homens na Comunicação Social a Susana Bento Ramos pela reportagem “Emma Watson” apresentada na TVI, no Jornal das 20h, no dia 2 de outubro de 2014. O Prémio Paridade: Mulheres e Homens na Comunicação Social “tem como objetivo estratégico criar um ambiente propício à igualdade de género, fomentando uma imagem equilibrada e não estereotipada das mulheres e dos homens nos meios de comunicação social e na atividade publicitária e de marketing, dando visibilidade e expressão às questões políticas, sociais, económicas e culturais, com que estas e estes se deparam.”

Esta é uma excelente iniciativa que merece maior divulgação. Mas não basta premiar os bons trabalhos é preciso uma intervenção diferente para multiplicar as boas práticas jornalísticas e construir o tal ambiente propício à igualdade de género na comunicação social.

Recentemente, e como acontece em alturas que apelam ao consumismo de tipo cultural, um dos jornais diários1 ofereceu aos seus leitores um artigo sobre os melhores livros de 2015 segundo os escritores. Se o facto desta proposta resultar da opinião de treze autores homens ser por si demonstrativo do pensamento dominante que julga poder representar a literatura portuguesa apenas com base na opinião de autores homens, ignorando todo um conjunto de autoras e de leitoras, a afirmação de que a “Uma única falha nesta lista: a ausência de escritoras, ou que não responderam ou desistiram à última hora.”2 é uma tentativa de responsabilizar as mulheres e culpar as autoras pela incompetência do próprio autor do artigo.

Não é verosímil que no universo de escritoras portuguesas não houvesse uma disponível para falar sobre livros. Aliás a Joana Bértholo3 já deu um grande contributo para futuros artigos ao nomear várias escritoras porventura desconhecidas do autor do artigo em questão mas que até foram citadas pelos autores homens que tiveram disponibilidade para colaborar na elaboração da lista de livros do jornal.

A crítica a este artigo é indispensável não só porque demonstra o longo caminho a percorrer para a promoção de uma comunicação social inclusiva mas também porque demonstra bem como as práticas culturais são muitas vezes práticas patriarcais que ajudam a perpetuar desigualdades e a necessidade de aprofundar a paridade em defesa dos direitos das mulheres.

Na mesma semana em que este artigo foi publicado tomei conhecimento de uma plataforma que se apresenta como “um repositório da não presença de mulheres no espaço público, mediático e académico”. Em Mulher Não Entra ficamos a saber que na Equipa Reitoral da Universidade de Coimbra dos/as sete Professores/as apenas dois são mulheres, que nos oito membros do Conselho de Administração Executivo da EDP não existe uma mulher ou que nos cinco artigos de opinião publicados no dia 18 de Dezembro no Jornal Expresso Diário nenhum foi escrito por uma mulher e outras denúncias quase diárias de desigualdades.

A ausência de mulheres em lugares de decisão, a ocultação das mulheres na comunicação social ou a sua representação estereotipada, a par da desvalorização de uma linguagem inclusiva constituem mecanismo de reforço de um modelo de sociedade em que os homens se tornam a norma ou o padrão. Nesta sociedade patriarcal a invisibilidade das mulheres torna clara a hierarquia que resulta das relações de poder entre homens e mulheres. Insurgimos-nos em nome da igualdade de direitos para todas e todos contra uma ordem social de género construída com base numa ideologia conservadora e autoritária. A cultura dominante é uma cultura patriarcal mas também na cultura existem propostas alternativas. Não as deixaremos silenciar.


1 http://www.dn.pt/

Sobre o/a autor(a)

Licenciada em Relações Internacionais. Ativista social. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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