Aumento do preço da água no Algarve: medida injusta, irresponsável e penalizadora das famílias

porJoão Vasconcelos

22 de fevereiro 2024 - 22:35
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Não podem ser os consumidores urbanos e os pequenos agricultores a pagar o preço das escolhas que apenas têm beneficiado uns quantos. A dependência da monocultura do turismo continua a acentuar-se à custa da proliferação dos baixos salários e do agravamento da crise da habitação.

Em janeiro passado, para fazer frente à seca e preservar as reservas de água, o ministro do Ambiente e da Ação Climática anunciou para o Algarve cortes de água de 25% na agricultura e de 15% no setor urbano. Posteriormente, o Conselho de Ministros aprovou uma resolução em que o governo, reconhecendo a situação de alerta na região, por motivos de seca, aprovou um quadro de medidas de resposta imediata, de caráter temporário, para a redução dos consumos e racionalização da utilização dos recursos hídricos.

é incompreensível que nos 43 campos de golfe existentes no Algarve, apenas 2 recorram à utilização de águas residuais

No início deste mês, a Comunidade Intermunicipal do Algarve /AMAL anunciou aumentos nos preços da água, a entrar em vigor já no próximo mês de março, em praticamente todos os escalões do consumo doméstico. O primeiro escalão que vai até aos 5 m3 de consumo por mês ficará isento, o segundo entre os 5 e os 15 m3 (onde se situa a maioria dos consumidores) terá um aumento de 15%, o terceiro dos 15 aos 25 m3 aumentará 30%, e o quarto escalão acima dos 25 m3 irá sofrer um agravamento de 50%. O consumo não doméstico, onde se inclui o comércio, a hotelaria e a indústria verificará um aumento de 15%.

O PS/Algarve que domina a AMAL (o seu Presidente e a maioria das autarquias do Algarve são afetos a esta força política) para fazer face a um grave problema que atormenta o Algarve há mais de uma década, a seca e a escassez de água, enveredou pela forma mais fácil que foi aumentar o preço da água. As Câmaras Municipais afetas a outros partidos mostraram-se indisponíveis para seguir o mesmo caminho, para já. Mesmo em período eleitoral o PS tomou uma medida injusta, irresponsável e penalizadora do rendimento das famílias na região, já a braços com situações de elevada precariedade, salários baixos e desemprego.

Se a baixa precipitação, agravada com o efeito das alterações climáticas, já dura há cerca de uma dezena de anos no Algarve, quais as razões que levaram o Governo e a AMAL a não tomar quaisquer medidas para aliviar e mitigar o problema? Assobiaram para o lado e agora penalizam os munícipes.

torna-se urgente e necessário proceder a uma reconversão da agricultura na região passando de uma produção intensiva e de alto consumo de água para um modelo mais sustentável

Se é verdade que parte do problema para a poupança de água no consumo humano passa pela consciencialização e sensibilização da população, não se verificou um combate decisivo às perdas de água na rede de abastecimento público. Por outro lado, é incompreensível que nos 43 campos de golfe existentes no Algarve, apenas 2 recorram à utilização de águas residuais e que este sistema não seja utilizado para a lavagem de ruas, rega de jardins e fins industriais. As autarquias da região preferem esbanjar milhões em fogos de artifício e outros eventos na mira de angariar votos em alturas de eleições. Devem agora, governo e autarquias, ser chamados à responsabilidade.

Por outro lado, torna-se urgente e necessário proceder a uma reconversão da agricultura na região passando de uma produção intensiva e de alto consumo de água para um modelo mais sustentável. Não podem ser os consumidores urbanos e os pequenos agricultores a pagar o preço das escolhas que apenas têm beneficiado uns quantos. Algumas grandes empresas apenas estão preocupadas com o lucro imediato e a dependência da monocultura do turismo continua a acentuar-se à custa da proliferação dos baixos salários e do agravamento da crise da habitação.

João Vasconcelos
Sobre o/a autor(a)

João Vasconcelos

Professor. Mestre em História Contemporânea.
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