Apesar dos “mas”, um NÃO rotundo à invasão da Ucrânia!

porAugusto Taveira

04 de março 2022 - 11:13
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A luta do povo ucraniano tem sido um exemplo de coragem numa guerra de David contra Golias. Sem esquecer os “mas”, todo o apoio ao povo ucraniano!

Como escreveu Daniel Oliveira, a verdade é a primeira baixa quando começa uma guerra...

Quase pode dizer-se que os comentadores e analistas são unânimes na condenação à invasão da Ucrânia. Ainda bem!

Tínhamos visto algo assim, aquando da luta pela independência de Timor Leste e na condenação da barbárie do Daesh.

Pelo meio do caminho, a quase unanimidade foi esquecida em muitas outras situações, como na da denúncia da mentira em que se baseou a invasão do Iraque. Se agora poucos se atrevem a sustentar que não foi um erro, a unanimidade pela Paz foi esquecida no momento em que era necessária.

A Esquerda tem o hábito de querer ir à raiz dos problemas, não se contentando com a reação emotiva aos acontecimentos que, em catadupa, nos entram pela casa dentro. À Direita basta-lhe um sobressalto para um mobilizador “Agarra que é ladrão! ´Bora, todos atrás dos maus, já!” Para reações emotivas não há muito espaço à reflexão. Por isso a Direita se sente incomodada com um “mas” que seja...

Queiramos ou não, há, de facto, infelizmente, demasiados “mas”... Com a primeira baixa inicialmente referida, foi naturalmente esquecido que os acordos de Minsk não foram cumpridos por parte de ninguém, a começar pelo Ocidente e pela NATO, que, contrariamente ao acordado, acabou por entrar em quase todos os países do ex-Pacto de Varsóvia, vizinhos da Rússia...

Só que, apesar de tudo, a alegada segurança da Rússia não justifica a invasão de um país soberano, com todas as atrocidades associadas, muito menos justifica o perigo de uma guerra nuclear. Mais do que a segurança da Rússia, a preocupação de Putin é a sobrevivência de um regime corrupto, onde a Liberdade é tratada como se tem visto.

Agora, ouve-se, em uníssono, a indignação – e bem – contra os oligarcas russos. Fica-se com a sensação de que os oligarcas são uma novidade saída desta guerra. Mas bem sabemos que não. Atrevo-me a uma pergunta: Com a embalagem, todos os “nossos” democratas de ocasião vão começar a indignar-se com todos os outros oligarcas por esse mundo fora, responsáveis por outras guerras, promotores das obscenas assimetrias à escala do Planeta e, bem assim, vão começar a pôr em causa o sistema que os produz?

A Esquerda orgulha-se do historial de repúdio pela prática dos EUA, de impor governos fantoches nos países vizinhos. Coerentemente, ao historial da Esquerda só pode juntar-se a oposição às pretensões do imperialismo russo, que não são mais do que fazer o mesmo na Ucrânia.

Aquando da invasão do Iraque, fiquei toda a noite, em sofrimento, a não querer acreditar na guerra que estava a ver em direto, contra gente igual a nós, mas de tez escura, de turbantes e vestidos esquisitos. Na altura, ainda que com “mas” relativos ao ditador que mandava no Iraque, torci pelas anti-aéreas iraquianas contra o invasor americano.

Nestes últimos dias, fico toda a noite, em sofrimento, a não querer acreditar na guerra que estou a ver em direto, contra gente igual a nós... Nestes últimos dias, ainda que com “mas”, torço pelos coktails Molotov do corajoso povo ucraniano, contra a clique invasora de Putin.

A luta do povo ucraniano tem sido um exemplo de coragem numa guerra de David contra Golias.

Sem esquecer os “mas”, todo o apoio ao povo ucraniano!

Faro, 1/3/2022

Augusto Taveira
Sobre o/a autor(a)

Augusto Taveira

Professor aposentado
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