É comum, nos dias que correm, invocar a doutrina Monroe como chave de leitura das opções geopolíticas de Donald Trump neste seu segundo mandato presidencial, da recente ingerência militar na Venezuela ao entendimento com Putin para o reconhecimento mútuo de esferas de influência, passando pelas ameaças recorrentes de anexação da Gronelândia. Contudo, e por muito que a doutrina Monroe nos dê a chave para explicar a atual política externa norte-americana, e ela é explicitamente referida na estratégia de segurança nacional recentemente aprovada (2025), é na doutrina do Big Stick, da autoria do presidente Theodore Roosevelt Jr. (1901-1909), que encontramos o fundamento para compreender, não só os mais recentes episódios de racketeering presidencial, mas essencialmente a natureza do próprio poder made in USA, e a sua projeção global, nos últimos 150 anos.
Nada retrata melhor essa doutrina do que a máxima speak softly and carry a big stick, o que em português prosaico seria algo como falinhas mansas pela frente e um grande cajado atrás das costas. Isto é, uma política externa aparentemente feita de diplomacia, mas sempre insinuando o uso credível da força militar para projetar os interesses nacionais; isto é, a paz pela força. Invocando a possível ingerência de estados europeus na Venezuela e República Dominicana, Roosevelt consagrou a hegemonia dos interesses da ‘América’ contra os vizinhos do Sul e a transformação destes em meros protetorados ou pátio das traseiras. Ao mesmo tempo, estava identificado o mix de recursos destinados a consolidar o poder e interesses norte-americanos no hemisfério ocidental e mais além, transformando a ‘América’ em grande potência.
Após deixar a presidência dos Estados Unidos (1909), e certamente nostálgico de campanhas militares passadas onde havia combatido, durante a conquista de Cuba aos espanhóis (1898), Theodore Roosevelt Jr. parte para um grande safári por África, que o leva de Mombaça, no Quénia, passando pelas selvas impenetráveis do Congo belga até Cartum, no Sudão, onde arriba surcando as águas do Nilo. De acordo com a Smithsonian Institution, a expedição terá caçado e matado 11397 animais, muitos dos quais enviados para aquela instituição e para o American Museum of Natural History. Em dezembro de 1913, Theodore Roosevelt Jr. embarca numa nova aventura, desta vez pelo Brasil, convidado pelo marechal brasileiro Cândido Rondón, para explorar o curso do rio da Dúvida, na região da Rondónia. A expedição seria descrita, em detalhe, pelo próprio Roosevelt, no livro Through the Brazilian Wilderness. Após a mesma, o curso de água foi batizado como rio Roosevelt.
Entretanto, é também por altura da guerra de Cuba (1898) que começa a carreira militar do general Smedley Butler, do corpo de Fuzileiros Navais, o mais condecorado marine até ao momento da sua morte. Butler combateu em todas as guerras coloniais dos Estados Unidos: para além da guerra de Cuba (1898), a guerra contra o novíssimo estado filipino (1899), a revolta dos Boxers na China (1899-1901), a Revolução mexicana (1910-1920) e as guerras bananeras, conjunto de conflitos em que, entre 1898 e 1934, e através da intervenção militar, ocupação e ação policial sobre os governos da América Central e Caraíbas, o US Marine Corps disciplinou o pátio traseiro. Num famoso discurso que vale a pena conhecer (1933), publicado em livro em 1935 (War is a Racket), Butler descreve a sua carreira militar como instrumental para a obtenção da supremacia corporativa, moral e geopolítica dos Estados Unidos e a construção de uma ordem internacional assente nos interesses associados: «Eu ajudei a tornar o México seguro para os interesses petrolíferos americanos em 1914. Eu ajudei a tornar o Haiti e Cuba lugares decentes para os rapazes do National City Bank colherem rendimentos. Eu ajudei na rapina de meia dúzia de repúblicas centro-americanas para benefício de Wall Street. O registo de racketeering [ação criminosa visando obter lucro através da violência, extorsão, fraude, suborno] é longo. Eu ajudei a purificar a Nicarágua, em 1909-1912, para os banqueiros internacionais da Brown Brothers. Eu levei a luz à República Dominicana, em 1916, em nome dos interesses açucareiros americanos. Na China, ajudei a que a Standard Oil fizesse o seu caminho sem entraves.»
Esta longa introdução serve o propósito específico de ilustrar, sublinhar, dar relevo aos fatores estruturais que marcam a conjuntura atual, sobretudo num contexto em que a intervenção pública sobre política internacional é marcada, maioritariamente, por uma análise meramente conjuntural e, por isso, simplista, reducionista, desprovida de contextos e, fundamentalmente, desconhecedora dos fatores estruturais que vão fazendo da conjuntura aquilo que ela é a cada momento. Falar da ordem internacional assente em regras, por exemplo, enquanto emanação da superioridade moral e da justiça de princípios liberais policiados pelas potências ocidentais é esquecer, ou branquear, que essa ordem é atravessada por complexas relações de poder, força e dependência que estabeleceram, nos últimos 150 anos, uma hierarquia corporativa, moral e geopolítica no plano global, assente num longo registo de racketeering. É esquecer, ou branquear, que a ordem liberal foi, desde o seu início, policiada por múltiplos generais Butler, e outros tantos delegados coloniais, que tornaram o mundo seguro para a democracia e para a concentração de riqueza nas mãos de elites cada vez mais exclusivas. É esquecer, ou branquear, que da ordem assente em regras também fazem parte as guerras bananeras do início do século XX, as múltiplas intervenções militares da ‘América’ durante a guerra fria, o apoio a ditaduras sangrentas e a guerra do Iraque (2003), assim como o financiamento, militarização e apoio diplomático e logístico ao genocídio em Gaza por Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, França e Itália, com a cumplicidade da Comissão Europeia.
Tudo o que vamos sabendo sobre a mais recente aventura gringa na Venezuela – e, já agora, na Gronelândia – dos discursos políticos aos encontros com as multinacionais do petróleo, mostra claramente que Trump é um racketeer à moda das guerras bananeras, cuja ação compromete a estabilidade interna e a democracia na pátria de Simón Bolívar. Mas ao contrário do que vem sendo apregoado, em pânico, pelas elites liberais europeias, não foi Trump quem enterrou a ordem internacional assente em regras. Quando muito, expô-la como fachada liberal de um modelo de política internacional que raramente correspondeu às expectativas e necessidades dos povos, mas que, pelo contrário, tem aprofundado o extrativismo violento e a competição por recursos naturais – petróleo, terras raras, ouro, água potável – ao mesmo tempo que privatiza lucros e socializa riscos ambientais, militarizando crescentemente as relações internacionais em nome dos interesses do complexo militar-industrial global.
São estas certamente as intenções benignas que Paulo Rangel encontrou na aventura bananera de Trump. Aliás, a posição do MNE português é paradigmática da cumplicidade europeia na oposição a uma efetiva ordem internacional multipolar, cumplicidade essa que compromete a autonomia estratégica da União Europeia e debilita a sua posição na defesa de uma solução justa para a guerra na Ucrânia e uma futura arquitetura de segurança pan-europeia. A política de dois pesos e duas medidas, que tem sido a marca da União Europeia, e da Alemanha em particular, é especialmente lesiva para um bloco que faz do poder normativo um pilar fundamental da defesa dos seus interesses. Raramente a política internacional permite o contraste empírico tão evidente de posições morais tão contraditórias, mas isso está a acontecer de forma acelerada. Aconteceu com as posições europeias face à invasão russa da Ucrânia e ao genocídio em Gaza e, agora, com as posições tíbias, ou mesmo coniventes, face à agressão de Trump na Venezuela que contrastam com os apelos à moral, à soberania e ao direito internacional em defesa da Gronelândia. E é mesmo patético ver os europeus aliviados, ou esperançosos, com cada reaproximação aparente de Trump, ou demonstração de que afinal nos necessita para alcançar objetivos comuns, na Venezuela, na Ucrânia ou no Médio Oriente. O trumpismo explícito de Meloni e Orbán, ou latente dos bálticos, promete dividir a Europa e fragmentar qualquer embrião de estratégia futura comum, mesmo sem ingerência MAGA.
Quanto a Rangel, parece ignorar que os sistemas imperiais – de supremacia geopolítica – não operam pela gratidão; ao contrário, operam pela hierarquia e submissão, e que esse foi o eixo da roda que moveu a política externa norte-americana desde Monroe. Na senda de Monroe e de Roosevelt, Trump declarou aliás, há poucos dias, em entrevista ao NYT, que não necessita do direito internacional para nada, e que as decisões da ‘América’ só serão limitadas pela sua própria racionalidade e moral. O grande equívoco da política europeia, e dos políticos europeus, é acharem-se aliados da superpotência – da grande ‘América’ – quando, há décadas, são meros clientes, ou peões, no jogo estratégico de consolidação da supremacia corporativa, moral e geopolítica daquela. A aventura bananera de Trump só veio tornar isto mais evidente, ou, em todo o caso, humilhante para as elites liberais, que certamente não deixarão de tirar da cartola novos prémios da paz para lhe afagar o ego. Mas não nos enganemos; não é Trump. É a dinâmica estrutural da política externa da ‘América’ e das agendas e interesses domésticos que fazem dela aquilo que ela é.
Uma versão reduzida deste artigo foi publicada no Público a 12 de janeiro de 2026