No passado dia 23 de julho tiveram lugar as eleições legislativas espanholas, as quais se traduziram numa vitória, por escassa margem, do Partido Popular, de direita conservadora, obtendo 137 lugares no Congresso, seguindo-se o PSOE, social-liberal, com 122 assentos. Em 3.º lugar temos o VOX, de extrema-direita, com 33 cadeiras e a seguir, muito próximo, a coligação de esquerda anticapitalista e ecologista SUMAR, com 31 deputados. Seguiram-se outras forças minoritárias, regionalistas e independentistas da Catalunha, País Basco, Galiza e Canárias. Estes partidos constituirão a chave para a formação do próximo governo – de direita (com ou sem extrema-direita), sob a responsabilidade de Núñez Feijóo, ou de novo Pedro Sánchez, à frente do PSOE e em aliança como o SUMAR. Não havendo qualquer acordo, de um lado, ou de outro, novas eleições acontecerão dentro de poucos meses.
Uma 1.ª lição a retirar das eleições no país vizinho é que quem governa acaba por assumir alguma vantagem, colocando-se na dianteira e instrumentalizando os órgãos da propaganda ao serviço da máquina governamental. Pedro Sánchez teve uma pesada derrota nas eleições regionais e municipais de 28 de maio, cuja vitória coube ao PP, que passou a governar 8 das 12 regiões que foram a votos, a que se juntam a Andaluzia e Castela e Leão, que anteciparam para 2022 as eleições e que o Partido Popular também ganhou. O PSOE também perdeu para a direita a governação na maioria dos municípios. Sánchez não perdeu tempo e logo no dia 29 de maio anunciou a dissolução do parlamento espanhol, composto pelo Congresso e Senado, e convocou eleições gerais antecipadas. O líder do PSOE foi ousado, tomou a iniciativa, jogou com o medo da extrema-direita e beneficiou com o voto útil, entre outras medidas, o que acabou por evitar uma estrondosa nova derrota. O PP, apesar de vencedor, acabou por ser o derrotado.
Isto faz-nos lembrar a atuação de António Costa no período antes das legislativas de 2022, onde conquistou a maioria absoluta para o PS, o que não se previa. Além de utilizar a seu favor toda uma panóplia de jornalistas, comentadores e propagandistas, Costa utilizou a mentira veiculada pelas agências governamentais e soube explorar, de forma hábil junto dos eleitores o medo de um governo de direita do PSD aliado à extrema-direita do Chega. O voto útil, à esquerda, funcionou na plenitude.
Uma 2.ª lição a retirar é a possibilidade de derrotar as forças racistas e neofascistas da extrema-direita. O VOX neofranquista de Santiago Abascal que esperava reforçar-se significativamente e entrar num governo dirigido por Feijóo, foi derrotado clamorosamente, passando de 52 para 33 deputados no Congresso. Apesar das forças extremistas de direita estarem a crescer um pouco por toda a Europa, não é uma inevitabilidade o seu reforço progressivo. Bem pelo contrário, é possível assestar golpes profundos nessas forças retrógradas. Os golpes só não são maiores porque a extrema-direita é normalizada pelos partidos de direita e os governos social-liberais, como o português e o espanhol, com as suas políticas antipopulares fornecem o alimento para o crescimento da extrema-direita. A derrota do VOX significa que é bem possível derrotar André Ventura e os neosalazaristas do Chega no nosso país.
Uma 3.ª lição que podemos inferir das últimas eleições legislativas em Espanha são as consequências do chamado “abraço de urso”. Não é novo e a história tem fornecido diversos exemplos. Com efeito, o Podemos, um partido anticapitalista e da esquerda socialista e ecologista, fundado em 2014 e que abalou a hegemonia do PSOE no seio das massas trabalhadoras e pequeno burguesas, além de diversos erros cometidos, está a pagar bem caro o facto de ter ido para o governo com esta força política social-liberal em 2019. É verdade que neste período a Espanha conquistou novos direitos sociais e laborais, a economia avançou e o peso deste país no seio da UE aumentou. Mas não foi suficiente e o povo de esquerda (à esquerda do PSOE) sente-se desiludido. Ou então perdeu uma parte da confiança nas forças em que antes confiava.
O PSOE, tal como o PS e outros partidos da mesma linha política integrantes na Internacional Socialista não abandonaram e nunca irão abandonar a sua natureza de classe. São partidos social-liberais (antes social-democratas) que fazem parte do sistema capitalista e que não pugnam por uma sociedade alternativa de esquerda, socialista, ecologista e popular. Acabaram por se aliar e apoiar os eurocratas de Bruxelas e o sistema financeiro, especulativo e corrupto, de costas voltadas e danoso para os cidadãos e outras massas trabalhadoras. Qualquer força verdadeiramente de esquerda que se alie a governos deste tipo acabará por pagar bem caro tal ousadia. No entanto, poderá haver uma exceção: o partido ou os partidos progressistas anticapitalistas terão que ser predominantes, isto é, a sua força e as suas políticas devem determinar o rumo de uma política autenticamente de esquerda, socialista e popular à escala nacional, regional ou local.
Embora ainda fora de qualquer fórmula de governo, o caso da França Insubmissa de Jean-Luc Melénchon merece ser acompanhado. Sob a sua direção foi formada a União Popular Ecologista e Social, integrando o Partido Comunista e o Partido Socialista, entre outros, para concorrer às eleições gerais em França, em 2022.
Voltando ao percurso do Podemos, em eleições legislativas, em 2015 obteve 20,7% da votação nacional e 65 deputados no Congresso; em 2016, a Unidos Podemos (aliança entre o Podemos e o Partido Comunista) conseguiu 48 deputados, alcançando 30 em abril de 2019 e 38 deputados em novembro de 2019; a partir daqui a Unidos Podemos entra para o governo com o PSOE e nas últimas eleições de julho passado o Podemos só conseguiu eleger 5 deputados no âmbito da coligação de esquerda SUMAR de Yolanda Diaz que, no seu conjunto, apenas conquistou 31 deputados (a coligação SUMAR é composta por 16 organizações – Movimiento Sumar, Podemos, Izquierda Unida, Catalúnya em comú, Más Madrid, Más País, Compromís, Chunta Aragonesista, Més per Mallorca, Més per Menorca, Verdes Equo, Alianza Verde, Batzarre, Proyecto Drago, Izquierda Asturiana e Iniciativa del Pueblo Andaluz). O Podemos e a sua aliança Unidos Podemos não conseguiram escapar ao “abraço de urso” do PSOE.
Como se referiu, partidos anticapitalistas de esquerda na Europa já tinham sido vítimas por terem participado em governos com partidos social-liberais. Convém relembrar apenas dois exemplos, em França e na Itália.
A partir de 1972 o PCF caiu a pique a favor dos socialistas com o acordo eleitoral assinado com o PS. Em 1997, com 9,9% na 1.ª volta e 3,6% na 2.ª volta (35 deputados na Assembleia Nacional Francesa) entrou para o governo coligado com o PS e os Verdes e o desastre acentuou-se. Nas eleições de 2002 o PCF obteve na 1.ª volta 4,8% e na 2.ª volta 3,3% (21 deputados) e nas eleições de 2007, na 1.ª volta 4,3% e na 2.ª volta apenas 2,3% (15 deputados). Nas eleições presidenciais de 2007 o PCF obteve os piores resultados da sua história, com apenas 1,9% de votos. O Partido Comunista perdeu assim a sua relevância política na sociedade francesa, ganhando posteriormente alguma projeção no seio da Frente de Esquerda.
A história política do Partido da Refundação Comunista consegue ser ainda mais dramática. Nas eleições legislativas de 2006 obteve 6% de votação e 41 assentos na Câmara dos Deputados. Decide então fazer parte do governo de Romano Prodi com um ministro (Solidariedade Social) e sete vice-ministros, o que provocou descontentamento interno e críticas da parte da extrema-esquerda europeia. A partir de 2006 o PRC baixou drasticamente de votação e nunca mais conseguiu eleger qualquer representação, tanto para a Câmara dos Deputados, como para o Senado. A participação no governo social-liberal de Prodi que enveredou por medidas antipopulares e contrárias aos interesses das massas trabalhadoras, tornou-se fatal para o PRC.